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terça-feira, 8 de maio de 2018

O que nunca se fala nos canais de esporte

Da renda de mais de R$ 1,2 milhão no jogo de domingo, coube ao Flamengo cerca de R$ 100 mil. Para abrir seus portões, o Maracanã, elitizado e privatizado por Ali Babá Cabral, cobra quase R$ 500 mil. Onde cabiam 160 mil pessoas, agora cabem 60 mil.

Ninguém se importa porque a TV paga a diferença e mantém os clubes no cabresto. A consequência é que mais de 60% da população brasileira não liga mais para futebol, segundo pesquisa recente do Datafolha. Preferem o basquete da NBA ou o a selvageria do MMA. Quando muito, torcem pelo Barcelona, pelo Manchester United, pelo Bayern de Munique. No campeonato patrocinado pela TV, a previsibilidade é a regra. Quem subiu da série B no ano passado deve cair de novo este ano. De vez em quando cai um grande para turbinar a venda do pay-per-view da segundona. O título da série A fica entre Flamengo ou Corinthians, aos quais a detentora dos direitos de transmissão paga muito mais do que aos outros. 

A suprema consagração deste modelo foram os 7 a 1 da Alemanha.

Não, nenhum debatedor de mesa redonda vai admitir que a derrocada do futebol brasileiro começou em 1987, quando um fabricante de refrigerantes e a emissora de TV hegemônica compraram o campeonato nacional e ordenaram uma virada de mesa. Só os 20 clubes de maior torcida disputariam a Copa União. Não cito o nome das empresas envolvidas nessa manobra nefasta porque suas concorrentes fariam o mesmo se pudessem.

O America, terceiro colocado no Brasileirão de 86, e o Guarani, vice-campeão, foram rebaixados para o módulo amarelo, que nada mais era do que a segunda divisão. Esses dois times, tradicionais, nunca mais se recuperaram do baque. O sistema de castas que a TV criou para distribuir suas cotas está provocando a falência de outras equipes que fizeram história no futebol brasileiro, como a Portuguesa de Desportos e os grandes clubes nordestinos.

Mas isso nenhum jornalista vai admitir na televisão. Preferem colocar a culpa pelo afastamento do público dos estádios na violência urbana, na truculência das torcidas organizadas, na crise econômica etc. Os comentaristas são incapazes, claro, de questionar a transmissão ao vivo de um jogo em TV aberta para a cidade em que ele é disputado. Nem tão pouco vão criticar os horários absurdos das partidas, que chegam a terminar por volta da meia-noite de um dia de semana.

É só mais um capítulo do fim do futebol.

Foto: Marcelo Migliaccio

4 comentários:

  1. Prezado Marcelo. Permita-me discordar, mas o caminho para a reconstrução do futebol seria exatamente a liga formada em 87 que precisava de um critério e utilizou o ranking deixando de fora o Guarani e o América. Foi uma pena, mas era necessário a utilização de algum critério. A liga foi implodida pelo Eurico Miranda que, contra a vontade do clube dos treze assinou um documento que aceitava o cruzamento dos modulos amarelo e verde como exigiu a CBF. Tudo que o Eurico e a CBF colocam a mão está fadado ao fracasso, essa é a questão!

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    1. O ranking foi conversa fiada, queriam só os clubes de maior torcida (telespectadores).

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  2. Pode ser, mas de qualquer forma precisaria haver algum critério para a escolha dos clubes. Mas é importante registrar que a liga foi iniciativa dos clubes e que se não deu certo foi por culpa da CBF.

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  3. A briga das torcidas e a violência urbana ajudaram a afastar os torcedores dos estádios, mas o desinteresse da população pelo futebol se deve muito mais a fraca atuação dos jogadores. Basta olharmos para trás e ver como eram as partidas e como é hoje !!
    E a CBF é uma instituição putrefata e gananciosa.

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