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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A estátua do ditador

O Rio é a capital mundial das estátuas. Do jeito que a coisa vai, um dia todo mundo terá uma estátua na Cidade Maravilhosa, até eu e você. Não sei de onde vem essa mania dos governantes daqui de plantar totens de bronze em quantidade. Só sei que os cachorros e os pombos agradecem. Também digo "muito obrigado", porque adoro fotografar estátuas. Só que outro dia, escondida num canto do bairro do Leme, descobri uma que é diferente de todas as outras. Uma estátua isolada, impopular, condenada à solidão eterna.

Foto: Marcelo Migliaccio

Nem de longe, o homenageado em frente ao Forte do Leme tem a popularidade de Carlos Drummond de Andrade, sempre cercado de turistas. Pudera, aquele homem nunca foi poeta.

Foto: Marcelo Migliaccio

 Não convida a um aperto de mão como o baiano tranquilão Dorival Caymmi...


Foto: Marcelo Migliaccio

... nem a um trago como Ari Barroso.

Foto: Marcelo Migliaccio

Não é famoso mundialmente como o Cristo Redentor, eleito uma das maravilhas do mundo moderno.




Não está no coração do povo como as músicas de Tom Jobim.

Foto: Marcelo Migliaccio

Quando esteve no poder, aquele homem jamais celebrou a cultura...

Foto: Marcelo Migliaccio

Ou a fraternidade...

Foto: Marcelo Migliaccio

Não, ele não foi um pensador.

Foto: Marcelo Migliaccio

Foi um ditador. O primeiro presidente militar após o golpe de 1964. Talvez por isso esteja eternamente condenado a uma posição de sentido.


Foto: Marcelo Migliaccio

Pode ser que o papel em sua mão direita seja o Ato Institucional número 2, que extinguiu o pluripartidarismo no Brasil.

Foto: Marcelo Migliaccio

O comandante supremo das Forças Armadas tinha um poder absoluto sobre as tropas que reprimiam os brasileiros.

Foto: Marcelo Migliaccio

Na sua cabeça, ele se achava no direito de cassar mandatos de parlamentares, de abolir as eleições diretas e de seguir as determinações do governo dos Estados Unidos. E fez mesmo tudo isso. Agora, os pombos fazem outra coisa em cima dele.

Foto: Marcelo Migliaccio

Nem o almirante Noronha, herói da guerra do Paraguai, que está a 200 metros, quer saber de olhar pra ele.

Foto: Marcelo Migliaccio

Clarice Lispector olha... 


... mas o que será que ela pensa?


Hoje, só os cachorros se aproximam dele, para sujar seu nome ainda um pouco mais.

Foto: Marcelo Migliaccio


Assista:
Um poeta mineiro perdido em Copacabana




3 comentários:

  1. Se não fosse o Forte do Leme, a estátua desse déspota com certeza já não estaria mais lá a muito tempo.
    Cury

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