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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

"Se fode aí"

Só existem dois tipos de pessoas: as que se importam com as outras e as que não se importam. Eu me importo, meus pais me ensinaram a ser assim. Ter compaixão, colocar-se no lugar do outro, se aprende. É uma questão de educação. Qualquer um de nós pode criar um cara legal ou um ser abjeto. 

Sempre é possível diferenciar as pessoas por esse critério. Existe o empresário que se preocupa com o empregado, quer saber se o trabalho pelo qual paga oferece segurança, se não é aviltante, degradante, insalubre. Mas tem outro tipo de patrão que não está nem aí. Não quer saber se o cortador de cana fica se matando debaixo do sol oito, dez horas, pra ganhar R$ 20,00; não liga para as condições de trabalho dentro da mina de estanho; obriga o motorista do ônibus a dirigir e dar o troco ao mesmo tempo. 

O primeiro tipo tem prazer em compartilhar seu lucro, divide o produto do trabalho em boas porções com quem lhe ajuda. O segundo, egoísta irremediável, só quer subtrair a força de trabalho do empregado gastando o mínimo possível. Esse tipo odeia secretamente a princesa Isabel. Seria ótimo para ele ter uns pobres coitados dando duro só em troca de teto e ração. Abomina também programas sociais com o Bolsa Família, porque sabe que um faminto aceita qualquer condição de trabalho sem reclamar.

O egoísta não liga pra ninguém. Saudoso da escravidão, é contra também as cotas para negros, e também para os espoliados brancos. O problema é que ele não consegue se colocar no lugar do próximo. Pra ele não aconteceu nada demais com os negros que justifique uma reparação histórica, um oferecimento de condições mínimas para a ascensão social a um povo historicamente marginalizado. Para consumo externo, o respeitável mau caráter condena os 300 anos de exploração, diz que aqueles aparelhos medievais de tortura eram um absurdo etc. Mas fale das cotas para negros na universidade e saberá o que ele realmente pensa.

É cômodo falar em "meritocracia" e citar exceções que só confirmam a regra quando se estudou nas melhores escolas.

Ah, mas há negros que criticam o sistema de cotas e dizem que isso desmerece seu valor... bom, já vi até negro na arquibancada  do Maracanã chamando jogador negro de macaco...

_ A culpa é da princesa Isabel!!! _ gritava ele.

Nunca fui um cara muito sociável mas sempre procurei respeitar o outro. Tento não incomodar, não ser inconveniente, coisa que para muita gente é impossível, eu mesmo nem sempre consigo. Tenho mais de mil defeitos, só não finjo que estou dormindo no metrô para não ceder meu assento a um idoso.

No outro extremo tem o cara que rouba milhões dos hospitais sem dar a mínima pra quem está morrendo. O sacripanta só pensa na  cobertura em frente à praia, no carrão tão grande que nem cabe nas vagas, dane-se o resto. Indignado, quer matar o pivete que rouba no centro da cidade. Não lhe passa pela cabeça o que pode ter levado aquela quantidade imensa de jovens a tornar-se tão insensível quanto ele mesmo. É egoísta demais para achar que também pode ter contribuído para o caos.

Essa gente está por todo lado. Pode ser até o seu chefe, aquele sacana que bajula os superiores e arrasa com os comandados. Seu lema na lida com a equipe é "se fode aí".

Há políticos que agem feito hienas em cima da carniça, como se não houvesse amanhã. Colocá-los na cadeia exemplarmente é o primeiro passo para que haja amanhã. É fundamental que a sacanagem deixe de compensar.

Tenho pra mim que esse egoísmo doentio tão comum hoje é uma conduta animal. Os animais irracionais são assim, defendem ferozmente o que acham que lhes pertence. Quando se educa uma criança para dividir em vez de multiplicar, esse instinto animal é anulado e forma-se um ser humano que vai contribuir para melhorar as coisas, não para piorar. Esse é o papel dos pais, porque nossa sociedade de consumo, apesar das mensagens institucionais belíssimas das grandes corporações, só aponta para o sentido contrário, só valoriza a competição, dá mais valor a quem tem mais.


Foto: Marcelo Migliaccio



7 comentários:

  1. Gostei do texto apesar de achar o palavrão do título desnecessário. Acho também que quando você faz a comparação com animais deveria ter enforcado o altruísmo, tão importante para a evolução das espécies.

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  2. Sobre cota nas universidades, sou a favor somente da cota social. Tem negro que pode pagar para estudar e usa a cota, já o pobre é pobre e não finge que é.
    Conheço pessoas que não são negras, mas se declaram negras para receber cotas.
    E porque não damos cotas para as mulheres ?? Elas não podiam ir para faculdade, votar, trabalhar, quando casavam viravam objeto e não exerciam sua cidadania.
    Se elas não tem cotas, porque outros tem ??
    Cury

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  3. Ué... O texto acabou na contextualização? E aí? Não tem conclusão? Vai ter segunda parte?

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    1. Conclua você, gostaria de ler a sua opinião, Jorge.

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  4. A questão das cotas para negros parece que só entende quem já sentiu na pele. Alguns chegam a dizer que os negros seriam até discriminados por isso. OK, mas deixem que pelo menos desta vez os negros possam decidir o que é melhor para eles.

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  5. Marcelo, que bom comecar o dia lendo esse texto!:-) O titulo (ou subtitulo) bem que poderia ser tipo, ser de esquerda, ser (?) de direita.

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