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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Apertando John Travolta

Em vez de perder tempo falando da contribuição de Anaximenes e Anaximandro à filosofia, as faculdades de jornalismo deveriam ensinar coisas práticas. O currículo foi engessado no passado, principalmente depois que caiu a exigência do diploma para o exercício da profissão. A verdade é que Agnaldo Rayol é capaz de ensinar muito mais sobre a comunicação de massa do que fósseis teóricos com o Adorno e McLuhan, "gênios" dos quais os universitários nunca mais ouvem falar depois da formatura.

Acho que o currículo deveria ser todo mudado. Creio mesmo que nem seriam necessários quatro anos de faculdade. Bastariam dois de um curso objetivo e técnico sobre a estrutura da notícia, o processo de apuração, ética, texto escrito e falado e noções sobre as diferentes mídias (internet, rádio, jornal impresso e TV). E seria um curso extensivo às demais carreiras, uma espécie de habilitação. Assim, o engenheiro poderia ser um excelente jornalista especializado em engenharia. Matérias de saúde seriam escritas por especialistas da área médica com habilitação em jornalismo. Assim, todas as profissões teriam seus especialistas em texto e informação e os jornalistas não seriam o que somos hoje: especialistas em coisa nenhuma, superficialistas profissionais.

Há repórteres de política que nem sabem direito quem foi Getúlio Vargas, nunca ouviram falar do mar de lama na imprensa que o levou ao suicídio.

Esses estudantes da UFRJ tão idealistas que agora ocuparam o Canecão exigindo que o governo faça ali um centro cultural popular (muito justo), poderiam pedir também mais ênfase na formação ética dos jornalistas nas faculdades. Ética não é só direito de resposta, vai muito além disso. Tem a ver com respeito, inclusive na hora de entrevistar.

Travolta nos
tempos da discoteca
No domingo, por exemplo, uma repórter da Record tentou de todas as formas fazer o ator John Travolta comentar as fofocas envolvendo seu nome publicadas pelos tablóides sensacionalistas. Apesar de ter sido avisada antes pela assessoria do ator que ele não falaria sobre supostas relações homossexuais, a intrépida jornalista brasileira esperou a hora da última pergunta para questionar Travolta a respeito das declarações de ex-funcionários, que o acusam, por exemplo, de passar cantadas em dois massagistas. O ator não se abalou, apenas continuou falando sobre a dor da morte do filho, pergunta feita anteriormente. A repórter ainda insistiu uma vez, provocando um constrangimento geral, inclusive do diretor Oliver Stone, que estava ao lado. É bom frisar que o cara disse que não queria falar naquilo _ e a moça fez questão de contar na reportagem, talvez para aumentar o próprio feito. Nem a desculpa de não saber ela tinha.

E se ele devolve a ela a pergunta:

_ E você, gosta de dormir com homens ou com mulheres?

Mas o Tony Maneiro de Os embalos de sábado à noite foi cavalheiro e não fez barraco diante da incoveniente perguntadora.

O pior é que esse tipo de jornalista é valorizado nas grandes empresas de comunicação. Quanto maior a cara-de-pau para constranger uma pessoa famosa, mais prestigiado é o profissional. Por isso a imprensa tem essa imagem péssima entre a população, uma reputação que só não é pior que a dos advogados, que muitas vezes precisam mentir por dever de ofício. A ética sumiu das grandes redações há tempos. Um dos mandamentos é que o jornalista tem que ser neutro em política, o que, para eles, significa elogiar o PSDB e atacar o PT. Privacidade? Nada. Acham que se o cara optou por ser artista está sujeito a invasões, perseguições pelas ruas e intrigas.

Atenção professores, ensinem nas faculdades que um jornalista pode ser educado, que ser impertinente não é um requisito básico da profissão. Que invasão de privacidade tem limite. Acabem com essa cultura de que deixar pessoas em maus lençóis dá mais audiência e é sinal de perspicácia. Seria muito bom que o sindicato dos jornalistas também atentasse para esse tipo de conduta.

Isso sim é uma questão de educação.


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Há perguntas que um jornalista não deve fazer

8 comentários:

  1. Na verdade acho que qualquer pessoa que tem uma certa bagagem cultural, é curiosa e escreve bem, ou seja, sabe despertar o interesse do leitor pela notícia, pode ser jornalista.

    Os grandes jornalistas de outrora não fizeram faculdade, se formaram nas redações e eram fantásticos.

    Concordo que o profissional de qualquer área pode vir a ser um bom jornalista. Realmente o meio acadêmico precisa rever a sua estrutura, que está pra lá de caduca.

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    1. Exatamente, o diploma é uma tentativa de reserva de mercado.

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  2. É só assistir a rede tv que a gente vê tudo que você falou.
    Sergio.

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  3. Tem alguns valores que qualquer um tem o dever de aprender desde a tenra idade e saber manter isso durante a vida: Educacao, Respeito, Dignidade. Infelizmente isso nao vem ocorrendo com varios individuos onde essa "reporter" se inclui.

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  4. Sobre as supostas relações sexuais do Travolta, a volta é outra ou é Outravolta? Isto é problema ou solução para quem? E por qual motivo? Isto prejudica a quem ou o quê? Não aceitar a realidade em nada irá modificá-la, não é mesmo?

    Sinceramente, a sexualidade é um tema tão mal resolvido na cabeça das pessoas...tão insatisfeitas e infelizes nas suas transas, que muitas nem questionam o seu próprio apetite sexual (os que possuem, pelo menos)...e acabam repetindo padrões, com ou sem vontade , e por obrigação.

    Está em cartaz um filme francês: ATÉ A ETERNIDADE, onde a falta de reflexão _ o cerne do filme_, tão em moda nestes cínicos e decadentes tempos neoliberais, tornou-se quase padrão ou exigência.

    Se Travolta eu fosse, responderia com a maior serenidade: não entendi a pergunta. Isto é uma cantada? Você pretende fazer sexo comigo? Até porque, ele sendo o que nntureza definiu pra ele: ou hétero, ou homo, ou bissexual, etc. (só tontos ou idiotas ou de baixa libido, ou assexuados, ou inocentes ...acreditam na inexistente opção sexual...ou, então, quem de fato pode escolher-lha , ou seja, quem tem a natureza bissexual ou panssexual como o Serguei kkkk).

    O fato de se sentir _espontaneamente_ tesão por mulher, por exemplo, não significa desejar toda e qualquer mulher, o tempo todo..."marrelógico".

    Realmente não é necessário fazer jornalismo para ler o imprescindível Theodor Aforno e outros inúmeros gênios da arte do bem pensar/questionar.
    Abraço
    Marcos Lúcio

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  5. O que a natureza definiu para ele...e escolhê-la, repetindo para corrigiro as desatentas sdigitações anteriores. Obrigado.
    Marcos Lúcio

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  6. Vixe!!!...coitado do Theodor Adorno...mal digitado, mas não mal interpretado, tomara!
    De novo corrigindo: "para corrigir as desatentas digitações anteriores", desculpe ...na verdade, ocorre por preguiça de colocar os óculos rsrs.
    Abraço
    Marcos LúcioI

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