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terça-feira, 14 de março de 2017

O ônibus das baratas

Em 1980, topei viajar com meu primo, de ônibus, do Rio até Florianópolis (aos 16 anos, o que são 16 horas de viagem?). Ao chegarmos na rodoviária Novo Rio, que na época já era velha, nos despedimos das nossas mães e entramos no coletivo da viação Penha, empresa da qual nunca mais eu me esqueceria.

Lá dentro, logo notamos uma profusão de baratas que saíam de todas as frestas, talvez despertadas de seu descanso pela quantidade de passageiros que entrava e pela perspectiva de muitos farelos de biscoito. Eram artrópodos daqueles pequenos, se não me engano chamados carinhosamente de francesinhas. Apesar do alívio momentâneo por não se tratarem das medonhas gigantes voadoras, logo um mal estar tomou conta do ambiente.

_ Mãe, o ônibus tá cheio de barata _ disse eu com a cabeça para fora da janela, meio baixinho, já temendo o barraco que minha genitora, decana das reivindicações de qualquer ordem, armaria naquela rodoviária.

Dito e feito. Pós-graduada em reclamação, minha mãe fez sua voz ecoar pelos quatro cantos da Novo Rio. Em altos brados, e com apoio mais comedido da minha tia, ela dizia que aquilo era um absurdo e que ninguém viajaria naquele ônibus imundo. Lá dentro, eu e o meu primo, timidamente, tentávamos conclamar os outros passageiros a protestarem também. 

Havia, no entanto, uma pasmaceira geral. Incrivelmente, as pessoas que pagaram passagem não protestavam. Um homem que sentava perto de nós, com um sorriso amarelo, chegou a comentar:

_ Com barata é que é bom...

Era o cúmulo da resignação, confesso que tive mais pena do que raiva dele. Uma mulher com um bebê de colo também relutava em juntar-se nós nas reclamações ao fiscal da empresa e ao motorista.

Algum tempo depois, eu entendi que aquele conformismo era resquício dos anos de ditadura militar que chegavam já ao seu final. Durante quase duas décadas, o povo brasileiro havia aprendido a aceitar tudo sem reclamar. E o que era um ônibus com barata diante de tudo a que aquela gente já fôra submetida.

Com o apoio de um ou outro passageiro, minha brava mãe conseguiu que a empresa trocasse o ônibus. Quando um veículo novinho encostou na baia, todos aplaudiram, inclusive os que já estavam conformados em viajar 16 horas com baratas passeando sobre seus corpos.

Hoje, 37 anos depois, vendo tudo que esse governo golpista já fez contra os brasileiros e contra seus direitos adquiridos em tão pouco tempo, fico a me perguntar por que só uma minoria protesta, por que a maioria da população não sai às ruas e coloca para correr todas essas baratas que assaltaram o poder.

Acho que vou chamar a minha mãe pra resolver isso.



Foto: Marcelo Migliaccio





5 comentários:

  1. Pois é, meu protesto é pelas redes sociais, tento não me informar pelas tvs e revistas. quem manda ali já tá rico e não quer saber de trabalhador que vive sonhando um dia se aposentar.
    SÉRGIO.

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  2. No Rio temos os ônibus com baratas e os ônibus dos Baratas, e ainda tem os ônibus dos Baratas cheio de baratas.
    Paulinho Cury

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    Respostas
    1. Os Baratas das contas de US$ 200 milhões no exterior...

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  3. As baratas de hoje estão divididas. Parte no governo, parte em Curitiba e ainda tem uma parte que insiste em dizer que não sabe de nada. O mais interessante é que o pessoal do pt tem votado junto com os "golpistas"... Por que será?

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  4. É a força da mídia meu caro. Esse povo continuará conformado com o seu destino enquanto tivermos uma mídia controlada por quatro ou cinco famílias. Malcom X já dizia que a mídia tem tanto poder que pode fazer um inocente culpado e um culpado inocente. Até aqui no seu blog vemos gente ainda tentando botar a culpa no PT pelo que vem acontecendo no país...imagine...

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