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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O "novo" JB não pode ser mais do mesmo

Passada a empolgação inicial, vejo alguns jornalistas que respeito criticando a primeira edição do novo Jornal do Brasil. Não li porque passei o fim de semana na zona rural da Baixada, onde nem banca de jornal há. Confio, porém, na análise desses colegas. 

Nem falo dos muitos erros de digitação apontados, embora tivessem todo o tempo do mundo para preparar uma edição de reestreia impecável. Mais grave é a carência de reportagens e o predomínio dos articulistas. Quem quiser ler a opinião dos outros tem a vastidão da internet para fazê-lo, e sem pagar nada.

Boa vontade só não basta. Vão fazer o mesmo feijão com arroz que levou o jornal para o buraco? Os antigos leitores, embora saudosos e agora felizes, estão envelhecendo, é preciso cativar gente nova.

É bom lembrar que existem mais de 54 milhões de pessoas cujo voto na eleição de 2014 foi cassado. Vão contemplar esses brasileiros revoltados com o golpe ou vão tentar fazer o mesmo pastiche insosso que O Globo faz? Carlos Drummond de Andrade está morto. Cadê os pensadores atuais, cadê o questionamento dessa corja neoliberal autoritária e entreguista? O novo JB será mais uma trombeta dos golpistas? Não precisamos de mais do mesmo, e sim de um jornal contestador, humanista, algo que o JB já foi um dia. Queremos uma voz que se levante contra essa epidemia fascista que tomou conta do Brasil. O que pretende o novo Jornal do Brasil? Quer anúncios das multinacionais golpistas e dos banqueiros ou quer ser um jornal de verdade para os brasileiros?

Aprendi a ler o JB ainda pequeno, vendo meu pai procurar ali uma voz dissonante da ditadura militar. Trabalhei no jornal anos depois, época em que um gestor incompetente tentava desesperadamente enterrar a histórica marca. Tanto fez que conseguiu e, a partir dali, mais de 7 milhões de cidadãos fluminenses passaram a ser informados por um único grupo de mídia, o que é trágico, catastrófico para a democracia. 

O Brasil precisa de primeiras páginas como essa, publicada no penúltimo ano da ditadura militar, quando o nordestino comia calangos para não morrer de fome.


7 comentários:

  1. Jornal de esquerda, nem pensar. Já ficaria feliz com um de centro-esquerda, mas como o diretor de redação sendo conhecido lobista do setor financeiro e defensor de primeira hora do golpe, acho que nem isso.

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  2. Afinal, de esquerda mesmo o JB nunca foi, apesar de, sem dúvida nenhuma, funcionar como uma voz dissonante na imprensa carioca. Tenho dúvidas se você incluiu O DIA nesse grupo de mídia único???

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  3. Está evidente que o caminho a seguir é muito parecido com o que já temos. Nada além. Ou não rodaria no Globo.

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  4. Li muito Mauro Santayana, Leonardo Boff entre outros bons colunistas na época que o JB deixava a mão de quem o folheava suja de tinta preta.
    Somos carentes de um jornal de verdade que tenha credibilidade, acho que não viverei para ver esse jornal.

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  5. Li e gostei da edição de domingo! Não sou jornalista, mas acredito que a ideia do relançamento tenha sido mais a venda da "marca JB". Nesse ponto eles acertaram.
    Também apresentaram a equipe. Gostei de alguns nomes, outros eu nem conheço, mas de qualquer forma; ter Ziraldo, Aroera, Miguel Paiva nos "desenhos" é elentador.
    Alentador também é ter o JB de volta. Não acredito em jornais de esquerda ou de direita; acredito sim no livre pensar. Nascimento Brito era um conhecido membro da elite mas nunca interferiu nas reportagens antológicas da época, e falo em um período tenebroso para o Brasil.
    Saudemos a volta do JB, nem que seja apenas um "vã esperança"...

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