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terça-feira, 9 de agosto de 2016

A Cinderela do golpe

Não se passaram nem 24 horas desde que a garota da Cidade de Deus conquistou uma medalha de ouro olímpica no judô e ninguém mais aguenta ver a Rafaela chorando no pódio. É de se perguntar por que a imprensa gosta tanto do jovem-da-favela-que-se-tornou-um-atleta-campeão.


A massificação da imagem da judoca, os apelos sentimentalóides com o Hino Nacional ao fundo vendem, mais uma a vez, a ideia de que todo favelado pode alcançar a glória. Tremenda conversa fiada, claro. Um atleta de ponta é raríssimo, mesmo em Harvard ou Stanford. Quanto mais nas periferias de um país do terceiro mundo campeão de desigualdade social.

Agora só se fala na Cidade de Deus da Rafaela, de onde a prefeitura retirou recentemente várias linhas de ônibus sem consulta nenhuma aos moradores.  

A quem interessa esse conto da Cinderela?

Mesmo com todos os projetos sociais de esportes nas comunidades, todo mundo sabe que a maioria daquelas crianças terá duas opções na vida: ser bandido ou limpar banheiros. Os primeiros provavelmente morrerão antes dos 30 anos e os últimos, com as novas regras pretendidas para a Previdência, terão que trabalhar pesado até os 70 anos (se aguentarem).

Quem conta incessantemente essa história da heroína Rafaela, por coincidência, apoia o grupo que tomou o poder de assalto no Brasil e que apressou-se em extinguir o Prouni, o Sisu e o Fies, programas que levam não uma mas muitas Cinderelas a um sonho que não termina quando entra a vinheta do comercial. O sonho do estudo, de uma carreira, de uma profissão que não seja de trabalho braçal como foi a de seus pais e avós.


Foto: Marcelo Migliaccio

3 comentários:

  1. Ó Pátria amada,
    Idolatrada,
    Salve! Salve!

    Salve os brasileiros que não tem um lugar ao sol, pois sendo o Brasil um gigante pela própria natureza, todos deveriam se beneficiar dessa grandeza.

    Cury

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  2. Mais um recado muito bem dado. Tiro - olímpico- ao alvo do cinismo político.

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  3. Mass...sejamos honestos e reconheçamos: Graças á presidenta , o Brasil ganhou a primeira medalha de ouro nesta Olimpíada, através do Bolsa Atleta Pódio, instituída pela lei nº 12.395, de 16 de março de 2011, do qual a merecida vencedora é (era) usuária. E o melhor, para desespero daqueles coxinhas estúpidos e sempre preconceituosos/intolerantes: O primeiro ouro foi para uma MULHER, NEGRA, FAVELADA E LÉSBICA. Se ela é da comunidade Cidade de Deus, ELE , benevolente , tolerante e inclusivista, deve ter intercedido.

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