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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O poder da Universal está no ser humano

Em 2010, eu escrevi uma crítica à Igreja Universal e também ao tratamento que a mídia lhe dá. O bispo Macedo gostou e até publicou no blog dele, como exemplo de "jornalismo imparcial".

Eis o texto:

Foi um tsunami diferente. Bem carioca. Em vez de água, na última quarta-feira as ruas da cidade foram inundadas por ônibus. Entraram por todos os lados, vindos dos quatro cantos do estado do Rio em pleno feriado de Tiradentes. O mar de mais de 1 milhão de evangélicos confluiu para a Enseada de Botafogo, onde a Igreja Universal do Reino de Deus promoveu mais uma de suas maratonas de louvor.
Não vou ficar perguntando de quem foi a culpa pelos engarrafamentos gigantes que incomodaram tanto. Vale mais refletir sobre a força desse movimento, que na verdade mostra a pujança do ser humano.
Já fui a um culto da Universal, na Catedral da Fé, uma imponente construção em Del Castilho (Zona Norte). Foi na época da eleição municipal de 2008. A ordem no jornal era averiguar se havia algum tipo de proselitismo político durante a celebração – Marcelo Crivella, bispo licenciado e senador, era um dos candidatos a prefeito.
Não constatei nenhuma menção eleitoreira no interior da catedral. No máximo, alguns cabos eleitorais de candidatos a vereador ligados à igreja distribuíam santinhos e seguravam cartazes do lado de fora. Na calçada, onde a lei permite.
Lá dentro, vi ao vivo o que já tinha assistido nos programas de TV. O mesmo discurso dos pastores, invocando trechos bíblicos, batendo forte na tecla da autoestima e, no final, pedindo aos fiéis que deixassem suas contribuições para a obra. Confesso que no momento em que o pastor pediu doações de R$ 20 mil reais me assustei. Era um culto destinado a pequenos e médios empresários em dificuldade. Ninguém foi ao palco deixar o polpudo donativo, e o pedido foi baixando até chegar a R$ 50, momento em que várias pessoas se levantaram e ofereceram seu sacrifício financeiro na esperança de ter melhor sorte no futuro. A vinculação fé-prosperidade é a tônica das pregações.
De outra vez, eu passava em frente ao templo da Universal na Nossa Senhora de Copacabana, por volta das 7h. Havia um culto lá dentro e vi que um mendigo, imundo, muito sujo mesmo, e alcoolizado, se dirigia para a porta de entrada. Parei para ver se o obreiro iria barrá-lo. Que nada, o homem entrou sem ser importunado. Como ele, muitos devem ter chegado à Universal naquele estado e se recuperado. O obreiro devia saber disso. Como os outros, aquele mendigo poderia em breve ser mais um membro do rebanho de Edir Macedo.
Acho que o ovo de Colombo dos líderes evangélicos foi descobrir que todo ser humano precisa ouvir palavras que o façam acreditar em si mesmo. Os cultos exploram essa neurolinguística, oferecem injeções de otimismo em doses cavalares. É isso que os pastores dão a seu rebanho: pensamento positivo e autoconfiança. Não é pouco para pessoas cujo cotidiano se resume a trabalho pesado, salário insuficiente, moradia indigna, família desagregada, vizinhança perigosa e saúde combalida por tanta infelicidade. Essas pessoas precisam tão desesperadamente acreditar em algo que não têm olhos para reparar se o pastor é canastrão.
As palavras bíblicas são muito poderosas, afinal séculos e séculos de perenidade lhes conferem autoridade. Nas igrejas evangélicas, pessoas que nunca tiveram disciplina adquirem um norte, mudam velhos costumes. Abandonam drogas pesadas, resistem ao apelo do álcool, sossegam o facho e reconstroem casamentos nos quais ninguém apostava mais um centavo.
Esse poder não está nos pastores, nem nessa ou naquela denominação. Quem se levanta do fundo do poço é o ser humano, cuja força interior é ilimitada.
Nenhum crente se preocupa muito em saber se o pastor lá na frente acredita naquilo que prega com tanta ênfase. Tentativas de derrubar o império da Universal foram muitas e não deram em nada. A igreja só cresceu apesar dos ataques e denúncias que volta e meia afloram na mídia e ecoam no Judiciário. De nada adiantam vídeos comprometedores, porque os fiéis aprenderam que quem vai contra Deus é o Diabo e estão mais preocupados em reconstruir suas próprias vidas. O que, aliás, é mérito exclusivo de cada um deles, e não de bispo ou pastor.


3 comentários:

  1. Gostei da leitura. E não vou deixar minha opinião pessoal.

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  2. Passei a olhar com bons olhos a Universal do Bispo Macedo depois que a Globo começou uma guerra contra eles, sou daquela velha máxima: Se a Globo não gosta, deve ser bom.
    Sabemos que há algum exagero deles, mas o trabalho social que fazem merece admiração.

    Ri muito quando o Macedo disse que a Igreja Universal é igual a omelete, quanto mais apanha, mas cresce !!
    Cury

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  3. Que bom se fosse só assim. O fundamentalismo religioso do qual a Universal , também, não abre mão citando a Bíblia com leituras/"interpretações" ao pé da letra , porém somente para o que a interessa(se for levar tudo, estupidamente, a ferro e fogo, ninguém mais trabalha aos sábados, ou come camarão, p.ex) ...faz com que os crentelhos vejam ou "sintam" como inimigos ou diabólicos, os que não jogam neste time de iludidos fanáticos, credo!.Aliás, cultuam o diabo, parece-me.

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