Translate

quarta-feira, 8 de julho de 2015

"Chesus te ama!"

Foto: Marcelo Migliaccio


Como faço sempre que a vejo, estava fotografando a coruja buraqueira que mora atrás do monumento aos pracinhas, no Aterro do Flamengo. Dessa vez, porém, ela estava acompanhada, e eu também. Quando percebi, um rapaz de bicicleta observava encantado as evoluções das duas corujas em volta do seu ninho.

_ Passarinho esquisito _ disse o da bicicleta. Ela fica em cima de uma perna só...

_ É uma coruja _  respondi, estranhando o fato de ele nunca ter visto um animal daqueles. E tem outra ali, apontei para a que estava mais distante do buraco-ninho.

O rapaz, que para mim era rapaz por ser bem mais novo, tinha o corte de cabelo militar e uma fala meio tatibitate.

_ "Teus" é lindo, "Teus" é maravilhoso! _ exclamava ele.

Eu fotografava meio que não dando bola para me proteger de um potencial chato de galocha, tipo muito comum hoje em dia. Mas, quando olhei para ele, vi que seus olhos de menino (para mim era um menino) brilhavam de verdade.

_ "Teus" criou os bichos, os pássaros, o mar. "Teus" gosta de água, porque a maioria da Terra é de água.

_ É mesmo... _ concordei.

_ As cores! Quantas cores! Eu não via nada disso antes de aceitar "Chesus".

_ E há quanto tempo foi isso? _ eu quis saber.

_ Em 2013.

Telespectador assíduo de programas evangélicos na TV, concluí que o que o teria levado à igreja poderia ser interessante. Por isso, fiz a pergunta que os pastores sempre fazem:

_ E como era antes?

_ Eu era do tráfico _ ele me disse, olhando no fundo dos meus olhos.

_ É, onde?

Depois de me dizer o nome do morro, frisando que lá se vende o melhor pó do Rio, "sem misturar fermento Royal", ele começou a contar sua história. Tinha 31 anos.

_ Entrei no tráfico com 14 anos. Primeiro como "puxa" (que eu não sei o que é), depois fui aviãozinho, até chegar a gerente. Minha família me expulsou de casa quando descobriu, mas eles alugaram um kitinete pra mim. Guardava nove fuzis.


Foto: Marcelo Migliaccio
_ Chegou a trocar tiros com a polícia?

_ Muito.

_ Foi ferido?

_ Nunca. Uma vez estavam pra me matar, pensando que eu era X-9 (delator). É que quando a UPP entrou, foi na casa de todo mundo menos na minha. Aí, pensaram que eu era X-9 mas eu não era. Aí, um dia, fizeram uma emboscada pra mim, eu "se liguei" (na verdade, ele falou "eu se liquei"). Devia ter alguém de longe com um telefone pra ligar caso eu fosse, aí um da quadrilha chegou perto de mim e bateu no meu ombro, pra dar o sinal, se o telefone celular no bolso dele tocasse, eles iam me matar. Só que o telefone não tocou, porque eu não era. Como um X-9 pode guardar nove fuzis em casa, sem nunca ter perdido nenhum?

_ Foi preso?

_ Fui preso um ano e oito meses depois de aceitar Jesus e sair do tráfico. Tive uma briga com a minha mulher e, como não tinha bandido no morro fomos na UPP. Os PMs levaram a gente pra delegacia e lá me disseram que tinha um mandado de prisão contra mim. Por causa de umas digitais. Quando eu era do tráfico, andava muito em carro roubado. Encontraram as minhas digitais num desses carros. Eu nem sabia que era procurado, porque nunca saía do morro.

_ Você nunca saía?

_ Nunca, estou começando a conhecer essas ruas aqui de baixo agora. Só ficava no morro.

_ E quanto tempo você ficou preso?

_ Doze dias, até "Chesus" me tirar?

_ Como você saiu?

"Chesus" me tirou _ insistiu ele com aquele brilho nos olhos.

_ Mas como... o juiz...

_ Eu passei os 12 dias orando e "Chesus" me tirou. Fui na audiência e pronto, não tinha mais nada.

Repórter que sou, esqueci as corujas e só pensava nas perguntas que vinham à minha cabeça.

_ Você tem filhos?
Foto: Marcelo Migliaccio

_ Dois.

_ É casado?

_ Separado.

_ E na hora de sair do tráfico, como foi?

_ Foi tranquilo, cheguei pro cara e falei que tinha aceitado Jesus e queria sair. Só isso.

E quanto você ganhava no tráfico?

Nesse momento sua sensibilidade achou que era hora de levá-lo pra longe de mim e ele começou a pedalar a bicicleta.

_ Deixa isso pra lá. "Chesus" te ama!

_ Mas...

"Chesus" te ama! "Chesus" te ama!

Acenei.


3 comentários:

  1. Bom texto, Marcelo Migliaccio!
    Abraços!

    ResponderExcluir
  2. Ao menos esse cristão poderia pedir para Chesus curar sua dicção
    Esse causo me lembrou os evangélicos que fazer proselitismo na minha rua, quando batem minha porta, olho pela janela e digo:
    -Bom dia, admiro o trabalho de vocês, mas eu não sou uma ovelha sem pastor, tenho meu rebanho.
    Eles entendem o recado e seguem para outra casa.
    Cury

    ResponderExcluir