Translate

domingo, 19 de janeiro de 2014

Rolezinho é o sistema vomitando

Shoppings fecham as portas. Imagine o prejuízo de um sábado ou domingo de lojas, lanchonetes, restaurantes e cinemas fechados. Mas é isso mesmo: medo. Medo da juventude que o consumismo criou. Adolescentes da periferia interessados em tênis de marca, roupas de grife. Centenas, milhares pelo Brasil marcando encontro pelas redes sociais nas quais saber escrever não é preciso. Basta ouvir funks de ostentação e pensar em sexo acima de tudo.

Jovens sem lazer, sem ideais, sem ideologia e sem nada melhor pra fazer do que se reunir numa fria e deprimente praça de alimentação. Filhos da geração educada pela Xuxa e pela Marlene Mattos, eles, como seus pais adoram novelas idiotas e lutas sem regras. Meninas que só pensam em arranjar um bombado que as sustente e meninos que só pensam em sexo. Os tipos que o Big Brother adora recrutar para deleitar seu público (sádico e limítrofe a ponto de babar com a pseudo poesia do apresentador). Se fizerem um teste de DNA para descobrir quem é o pai dessa moçada toda vai ter muita confusão. Será o Ratinho, o João Kléber, o Gilberto Barros, a Eliana? Também pode ser o Faustão, que acha que contribui para o nosso belo quadro social colocando obras de arte no telão diante do qual desfila quase sempre o que há de pior na indústria cultural...

Incentivaram tanto o sexismo precoce que a panela transbordou de gente, uma nova geração vazia, fútil, desinformada, alimentada com americanismos da pior espécie. Só caiu a ditadura militar porque a ditadura da mídia era muito mais eficaz na arte de emburrecer e embrutecer. E quem precisa de tanques de guerra para censurar a imprensa quando toda a informação fornecida pelas grandes corporações da mídia pode ser manipulada? Que revolução fará uma geração formada pelo festival de bunda e porrada com o qual a TV aberta lava cérebros há décadas?

Os shoppings agora temem seus próprios filhos, os filhos da propaganda, da educação falida, acostumados a ver que o crime compensa (alguém aí acreditou que as condenações do suposto mensalão inauguraram uma nova era na Justiça brasileira?). Esse tal de Rolezinho é apenas o rebanho rumando para suas catedrais num dia de folga. Anittas e Latinos rumo à sua Meca, o shopping center.

Foto: Marcelo Migliaccio
A catedral não comporta
mais tantos súditos
Por isso a elite odeia governos que distribuam renda. O capitalismo só tem graça se houver excluídos. Será que um Porsche teria tanto valor se não houvesse um monte de gente viajando em pé no ônibus ao lado? Esses jovens bem que poderiam estar limpando os banheiros dos shoppings ou simplesmente isolados em suas Faixas de Gaza, sem dinheiro sequer para pegar um ônibus até o centro comercial mais próximo. Mas não, eles agora existem, não querem saber de ser garis ou empregadas domésticas como foram seus pais e seus avós.

Eles querem participar da festa, mas a festa foi programada para poucos. Já há imbecis demais, os filhos da elite preencheram todas as vagas.

No início, os donos dos shoppings mandaram seus seguranças revistarem todos aqueles que achassem ser da periferia. Negros, por exemplo. Não adiantou, porque os rolezeiros não portavam armas. São jovens sem futuro e cujo presente se resume a uma sacanagem qualquer. Então a solução encontrada foi entubar o prejuízo e fechar as portas.

A Justiça, cega como sempre, quer prender os garotos descerebrados que convocam reuniões pelo Facebook. A Justiça, sempre a Justiça, a postos para proteger a propriedade privada. Por que a multidão teen não pode entrar nos shoppings? Foi isso que a publicidade semeou e agora não dá conta de atender.

Na periferia paulistana, áreas em que vivem-vegetam 600 mil jovens não dispõem de uma praça, uma área de lazer sequer. Os cinemas? Ou viraram igrejas evangélicas ou estão exibindo telefilmes oportunistas que só desmoralizam a sétima arte.

Primeiro foram os black blocks, quebrando tudo por quebrar. Agora são os rolezeiros, cuja existência não estava nos planos do capitalismo selvagem. O sistema está tão intoxicado com todo o lixo que produz que começou a vomitar um mercado consumidor indesejável, que pode até ter algum dinheiro para gastar, mas nunca terá educação.

A ganância estragou tudo, do futebol à religião, não seria diferente com a juventude. E o que fazer com essa legião de pit boys e patricinhas dos bairros pobres das grandes cidades?

Até agora, a única coisa que ocorreu aos donos do poder econômico foi chamar a polícia para mantê-los bem longe das suas vitrines.  Se a Globo exibisse o Big Brother 24 horas por dia, certamente eles ficariam em casa assistindo.



27 comentários:

  1. Existe uma tematica q solucionaria a problematica dos rolezinhos....

    É só colocar grades de ferro nos Shopings, lindas grades artisticamentes confeccionadas com motivos globais(plim plim) de inspiração primeiro mundista e com toques de globeleza carnavalesca, que é pra animar a moçada nesta epoca (belle epoque?) tão festiva...
    Deveria ter vendido essa ideia antes do natal (papai noel ficaria lindo numa gaiola dourada).
    Atributo este, extensivo a entrada das lojas propriamente ditas tambem...
    E alem do mais teremos uma contribuição social relevante, pois os rolezistas estariam demasiado ocupados confeccionando as referidas grades em serralharias suburbanas, para se disporem a interromper o lazer dominical da nossa elite neo burguesa.

    Torelly

    ResponderExcluir
  2. A uns 10 anos, o Shop.Rio Sul recebeu a visita de dezenas de favelados, na época, eu vibrei com essa "invasão".
    Agora, continua gostando muito dos rolezinhos, pois é a criatura indo contra o criador desse sistema excludente que vivemos.

    Concordo com Rudá Ricci (autor de Nas Ruas) quando diz que Quem está politizando esta brincadeira infantil é a PM.

    Cury
    .

    ResponderExcluir
  3. É, Amigo,,,

    Como dizíamos: socialismo ou barbárie!

    Abraços fraternos,

    Wanda

    ResponderExcluir
  4. A Wanda lembrou muito bem do "Socialismo ou Barbárie"! Já o texto pode ser resumido na frase, que infelizmente é a pura verdade e diz quase tudo: "O capitalismo só tem graça se houver excluídos".

    ResponderExcluir
  5. Prezado Marcelo...seu texto é tão assertivo, lúcido e coloca uma lente de aumento tão real e poderosa que, para não maculá-lo, dispensa meus singelos ou desimportantes comentários...lembrando que um "movimento" com um nome no diminutivo já diz (quase) tudo.

    Dentre as incorrigíveis sacadas, parabenizo-o e destaco estas: " Eles querem participar da festa, mas a festa foi programada para poucos. Já há imbecis demais, os filhos da elite preencheram todas as vagas.Incentivaram (telê) tanto o sexismo precoce que a panela transbordou de gente, uma nova geração vazia, fútil, desinformada, alimentada com americanismos da pior espécie. Que revolução fará uma geração formada pelo festival de bunda e porrada com o qual a TV aberta lava cérebros há décadas?Esse tal de Rolezinho é apenas o rebanho rumando para suas catedrais num dia de folga. Anittas e Latinos rumo à sua Meca, o shopping center. Até agora, a única coisa que ocorreu aos donos do poder econômico foi chamar a polícia para mantê-los bem longe das suas vitrines. Se a Globo exibisse o Big Brother 24 horas por dia, certamente eles ficariam em casa assistindo".
    Abraço
    Marcos Lúcio

    ResponderExcluir
  6. O texto está impecável. Não faltam nem sobram palavras para retratar a realidade que temos aí.

    ResponderExcluir
  7. Parabéns Marcelo ! Texto irretocável e merecedor de ampla divulgação.

    ResponderExcluir
  8. Reparou, na foto de hoje, que a bandeira do glorioso Mengo esta acima de todas as outras e que a do Flu esta abaixo de todas? Sera que isso eh um sinal conhecido como "segundona"??

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não, é que se colocarem a do Flamengo mais embaixo alguém vai lá e rouba…

      TRICOLÚCIDO

      Excluir
  9. Impressiona o fato de um tricolor nunca conseguir se manifestar sem apelar para o preconceito. Mas voltando a questão da foto nota-se claramente que os times da primeira divisão estão do lado direito, enquanto os de segunda estão a esquerda!

    ResponderExcluir
  10. Bom dia, Marcelão!

    Eu vi o vídeo do Cineasta X Batman a primeira pessoa que lembrei foi você.

    Encontrei quase todos os elementos do que você sempre escreve.

    http://www.youtube.com/watch?v=k8iy3eehwa8

    Abs do seu amigo do ES!!!

    Você já ficou 100%?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tô quase. Abraço. Tentei falar com você na época em que veio ao Rio, mas o email não teve resposta.

      Excluir
    2. E não sei se tenho mais pena do cineasta que se diz "bom assalariado" ou da mulher que encheu a boca pra falar que é de direita. O que sei é que nunca gostei do Leblon.

      Excluir
    3. Te mandei um e-mail. Abs!!!

      Excluir
  11. Sr Alexandre, Sr Sou Contra, por favor. Não percebem que o Blog do Marcelo trata de assuntos sérios? Entre eles, que divulga e alerta sobre a imbecilidade que toma conta da nossa sociedade? E nela, uma das maiores de todas é o fanitismo recalcado de torcedores como vocês? André Guimarães.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Deixa pra lá, André, a brincadeira é salutar, mas falta a alguns senso de humor. Abraço

      Excluir
    2. Caro Andre vou te contar uma coisa: Eu NUNCA dei atencao para futebol. Eu NUNCA fui a um estadio para ver um jogo. Agora, quando vi a foto e a bandeira do Flu (o time do Marcelo) naquela posicao, em relacao as outras, nao pensei 2 vezes e mandei ver. Afinal, coisas serias a parte, uma sacaneadazinha nao tem preco!! :o))

      Excluir
  12. Será que agora teremos que explicar a piada? Diferentemente do Ariel gosto muito de futebol, mas sem me alienar e sei muito bem que quando uma torcida como a do Fluminense chama a do Flamengo de favelados e ladrões ela está sendo preconceituosa, e mais, diz que tem muito favelado para não dizer que tem muito negro. Se o tema futebol ( e todo o arcabouço social, econômico, racial e político que o envolve) não interessa a um ou outro leitor, ai eu só posso dizer, sinto muito...

    ResponderExcluir
  13. Se o tema futebol (não o arcabouço que o envolve) interessa a um ou outro ou a milhares de leitores, igualmente , só posso dizer: sinto muito. Gostar ou não deste bando de marmanjos correndo atrás da pelota, não enobrece, nem desqualifica ninguém.Conheço gente da melhor qualidade tanto entre os apaixonados, quanto entre os indiferentes ao ludopédio ou balípodo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Existe um sem numero de blogs que nao discutem futebol. Nao eh o caso deste, cujo o proprio Marcelo ja aborda o tema em seu perfil. Portanto, quem achar desagradavel o fato do tema ser abordado neste blog pode tentar outros. Que tal o do Reinaldo Azevedo ou do Diogo Mainardi..m

      Excluir
    2. Sinceramente não entendi, bravo Alexandre.Acredito que o anônimo talvez nem seja contra futebol (pode ser indiferente), além do que, o texto do Marcelo é sobre rolezinho. O que posso imaginar é que, se algum leitor não gosta de futebol (veja quantos poucos posts do blogueiro tratam disto), naturalmente não lê a postagem futebolística. O bom deste blogue é justamente a diversidade de assuntos (faça a estatística , inclusive do conteúdo político...e depois me conte). Sem pretender contestá-lo -e por qual motivo?!- com meu despretensioso pitaco, penso que, se algum leitor não gostar da água suja do futebol rsrs, não vai precisar jogá-la fora com a criança e a mãe dos variados assuntos aqui tratados e pior seria: ler os estrupícios/nefastos rs...sugeridos por você.

      Excluir
    3. Concordo com tudo isso Marcos, só não gosto mesmo é de ficar explicando a piada rsrsrs...

      Excluir
  14. Bom dia Marcelo, queria pedir sua permissão pra utilizar seu texto na primeira reunião do ano que terei com os professores de História do município de Macaé. Sou coordenadora pedagógica da disciplina e achei sua análise perfeita para uma série de reflexões sobre nossos alunos. Obrigada, Maria Elvira Figueiredo Theodoro.

    ResponderExcluir
  15. Ao rolezinho nas bibliotecas, museus, centros culturais, asilos e creches!!!

    ResponderExcluir