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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Biografias: a intimidade é sagrada

Sou leitor contumaz de biografias. Reconheço que há ótimos ficcionistas, como Aluisio de Azevedo e Charles Bukowski,  por exemplo, no entanto prefiro a fértil imaginação do destino, as histórias que realmente aconteceram e que mostram como o imprevisível ronda o ser humano. De Garrincha a Mao Tse Tung, de Charles Chaplin ao Capitão Aza, de Dercy Gonçalves a Keith Richards, leio todos os relatos biográficos que posso. Só quando o biógrafo é muito ruim de prosa eu paro no meio, porque aí também não há santo que resista.

Então, se há alguém que deveria estar contra esse movimento pela proibição de biografias não autorizadas, esse sou eu. Encabeçada por nomes consagrados da cultura nacional como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, a iniciativa vem sendo repudiada por meio mundo por ser, segundo seus opositores, uma forma de censura.

Politicamente, quase nunca concordo com Caetano Veloso, o que não se aplica ao Chico Buarque, com quem sempre tive mais afinidade ideológica. Admiro e curto ambos como artistas. Para mim, junto com Gil e Raul Seixas, são os maiores compositores da música brasileira. Entretanto, agora que o autor de Alegria Alegria sofre uma saraivada de críticas, sou obrigado a me colocar ao seu lado.

Antes de ser um admirador de biografias, sou jornalista. E uma das coisas mais importantes que aprendi na faculdade é que o direito à privacidade é sagrado, ou deveria ser, porque diariamente a mídia desrespeita esse postulado, expondo à execração pública famosos e anônimos em seus noticiários sem dar a menor importância aos efeitos que isso terá na vida do sujeito dali em diante.

Quando Roberto Carlos entrou na Justiça para proibir sua biografia, eu já tinha o livro. Li e gostei mas achei que o cantor tinha todo o direito de não querer que fosse publicado.

Pública é a obra do artista, não sua intimidade. Esta é indevassável, inviolável, nem que para isso sejam contrariados os interesses comerciais da indústria milionária da fofoca e da maledicência. E algumas das melhores histórias de vida que li foram contadas pelos próprios, como as de Lobão, Dercy Gonçalves e Ron Wood, o que prova que não necessariamente o auto-biografado deixa de revelar suas feridas e fraquezas.

Alçado à condição de mito pela imprensa por ter relatado um processo contra petistas, o ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa se disse contra a proibição das biografias não autorizadas. Segundo ele, o livro deve ser publicado e, se o biografado se sentir ofendido ou exposto indevidamente, que entre na Justiça para reclamar. Essa é boa. O cara está em casa, tranquilo e, de repente, precisa contratar um advogado para impedir que sua vida, contada por outra pessoa sem autorização, não seja devassada nas prateleiras dos supermercados. Mais uma vez, discordo do Joaquim Barbosa.

Se o biografado ou seus herdeiros (o que já seria arriscado) não autorizarem, não tem biografia. Perderemos de ler algumas boas histórias, é verdade, mas o direito à privacidade estará preservado.

Como argumento definitivo, alguém pode citar a Bíblia, que seria a história da vida de Cristo, só que eu vou duvidar de muita coisa escrita ali até ver a autorização Dele por escrito...

Meus colegas jornalistas, na maioria, vão discordar de mim, porque aprenderam com os chamados "formadores de opinião" (a turma que detém a grana e os alto-falantes) que censura é um palavrão se impedir o lucro de alguém, mas é muito bem vinda quando serve para banir algum adversário político dos meios de comunicação (como fizeram com Lula quando ele surgiu nas greves do ABC e com Brizola durante sua vida inteira). Aqueles que hoje clamam por liberdade irrestrita foram os mesmos que baniram da mídia Tim Maia, Simonal, Taiguara e tantos outros pelos mais diferentes motivos. Aliás, muitos crimes foram cometidos em nome dessa tal liberdade de expressão depois que as ditaduras se encarregaram de desmoralizar a palavra censura. Destruir reputações com interesse político ou econômico é prática constante na nossa imprensa e quem se colocar contra é logo classificado como "antidemocrático".

E, se você ainda não concorda comigo, pode procurar um advogado, pois começo a escrever a sua biografia amanhã mesmo e vem chumbo grosso...

12 comentários:

  1. Bem, a minha biografia você até poderia escrever, mas certamente vai encalhar e se tentar me "denegrir" não vai adiantar pois já sou negro. A maior parte das informações importantes você encontra no meu currículo Lattes. Na verdade ainda não consegui fechar uma opinião sobre o assunto, mas certamente a sua opinião sobre um tema relacionado ao jornalismo, deve me influenciar. O simples fato de vermos Caetano que é a inconstância em pessoa, ao lado de Chico que sempre foi coerente em suas posições já mostra que o assunto é polêmico. A biografia do Lobão pode até ser risível, mas tudo que ele fez para mim foi jogado no ralo depois que ele disse coisas do tipo, " A ditadura militar é muito barulho por conta de algumas unhinhas arrancadas", culminando com o fato de hoje escrever na Veja. Enfim, as vezes é melhor ouvir antes de concluir...

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    1. Quanto ao Lobão, é bom não confundir a biografia 50 anos a mil com o livro de asneiras que ele escreveu em seguida.

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  2. Seu texto é "primoroso"! Concordo com vc. Agora sugiro a leitura do livro O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO (Saramago), onde o Próprio conta tudo. Se a pessoa pública tivesse a coragem de escrever sua biografia, contando tudo, as glórias e fraqueza comum a todos nós, venderia adoidado. Todos os famosos tem os pés de barro. Mas quem admite? Yves.

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  3. Marcelo,

    você é ótimo!!!!

    Assino em baixo de tudo o que disse.
    Comecei a trilhar o caminho da História, na adolescência, lendo biografias que meu avô me emprestava (ele tinha toda a coleção do Stefan Zweig!). A partir daí passei a achar que a vida privada de personagens públicos muito me ajudava a entender o desenrolar da história humana.
    Do Zweig passei para o Balzac que, mesmo não sendo biógrafo de indivíduos, foi um observador agudo das individualidades em um mundo de artificialismos. E aí estamos: biografia para lá, biografia para cá.
    Na verdade tenho meio preguiça de biografados que posam de ofendidos, mas adoram aparecer criando polêmica onde não existe (vide Caê, o irmão de Bethânia). Tenho meio preguiça de ler biografias que não me trariam muito coisa (e olha que sou curiosíssima!), como caso do Roberto Carlos; o que vou achar lá? Que ele não tem mesmo a perna esquerda (ou é a direita?)? Você já reparou que a maioria dos biografados que chiam são panacões?
    No entanto concordo muito com o cuidado com a privacidade.

    Um grande abraço da admiradora de sempre,

    Wanda Rodrigues

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  4. A biografia do Roberto Carlos é muito interessante, mas isso não tira dele o direito de não querer que ela seja publicada. Abração

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  5. De novo, assino em baixo!

    Saudações,

    Wanda

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  6. Gosto muito de ler biografias, principalmente de filósofos, mas a de RC não me despertou interesse, apesar de gostar das suas músicas antigas.

    Cury

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  7. Existem inúmeras revistas de fofoca que são piores que qualquer biografia, e ninguém proibi a venda dessas porcarias.

    Cury

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  8. Bem, depois de me informar melhor sobre o tema e assistir o quebra pau entre a Paula Lavigne e a Bárbara Gancia vou mais uma vez manter a coerência em minhas posições: Pelo mesmo motivo que sou contra a pena de morte e a redução da maioridade penal no
    Brasil serei a principio contra a possibilidade de se escrever qualquer coisa sobre alguém eem autorização. Explico. Se houvesse uma indenização justa e ate mesmo a possibilidade de prisao para os caluniadores eu seria a favor, mas como a nossa justiça ainda é pouco justa sou contra.

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    1. Absolutamente sagaz e justo.

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  9. Mauro Pires de Amorim.
    Concordo plenamente com você e como advogado lhe dou apoio, pois estar devassando a vida de alguém sem a devida competência, garantida e autorizada, mais me parece jogada de oportunista que quer faturar em cima da imagem e vida alheia ou então, gente que não tem o que fazer da vida e que, portanto, vive falando da vida alheia.
    Com isso, digo que o ministro Joaquim Barbosa foi infeliz em seu posicionamento. Inicialmente por se revelar um simplista e contraditório burocrata jurídico, que acha que todos os conflitos da vida tem que ser resolvidos pelo Poder Judiciário, ao passo em que, o próprio Poder Judiciário seja permissivo e alimentador da criação de conflitos, na medida em que defende o direito de alguém escrever biografia não autorizada de outrem, violando dessa forma o direito básico à paz e sossegue que todo ser vivo merece para ter a mínima condição de uma vida mais saudável e tranquila.
    Em segundo lugar, o ministro Joaquim Barbosa foi infeliz na medida em que, se o Poder Judiciário e sues membros funcionais de sua estrutura administrativa, que volta e meia vivem se queixando de que o Judiciário não consegue dar vazão à demanda de ações que são protocoladas, sendo essa a razão e motivo da morosidade da justiça brasileira.
    Portanto, a demanda e a solução de conflitos na sociedade brasileira só irá diminuir o dia em que cidadãos em geral tiverem respeito e noção pelos direitos de outros cidadãos e não violarem a fronteira desses direitos alheios, obrigando o próximo a ter que buscar no Poder Judiciário a solução e reparação do dano e violação cometido pelo outro.
    Felicidades e boas energias.

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  10. Mauro Pires de Amorim.
    Somente para complementar meu comentário anterior, digo que, nosso povo somente terá noção e respeito pelos seus direitos de outros cidadãos, quando realmente receber a educação para isso e tal feito remete ao sistema de educação básica e a inclusão dessa matéria como preceito educacional para a cidadania, até porque, para exigir o respeito a algo, é preciso se saber o que se vai exigir, a quem reclamar e a forma como se vai reclamar.
    Assim, reclamar corretamente, se tendo essa noção de seus direitos e deveres é também preceito democrático e enquanto canais de vozes ativas para os legítimos reclames da cidadania em uma sociedade democrática existem vários que não são necessariamente somente o Poder Judiciário, pois a imprensa também é uma dessas formas de voz ativa na medida em que dá a devida publicidade e veracidade a tais reclames, isso quando a imprensa não está comprometida com o status quo reclamado, pois, em uma sociedade verdadeiramente democrática, há também uma diversidade de imprensa e espaço para essa diversidade por meio de canais de comunicação e divulgação que não são comprometidos com o status quo reclamado.
    Portanto, em uma sociedade verdadeiramente democrática, o status quo dos poderes não teme a imprensa ao ponto de ter que compra-la como seu veículo de propaganda ao passo em que, a imprensa ou grande parte dela não se presta a esse papel retrógrado e ridículo de estar se prostituindo para ser um mero folder do poder estabelecido. Por essa razão é que, nas últimas duas autocracias que tivemos na história recente de nosso país, as ditaduras do Estado Novo e a Militar de 1964, a imprensa vivia amordaçada e atrelada ao status quo por meio de seus departamentos de censura, de propaganda e genericamente, os órgãos de controle e repressão da ordem política e social, que se voltavam contra quem fosse considerado indesejável pelo poder estabelecido.
    Felicidades e boas energias.

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