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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O velho amigo

Confesso que eu estava nervoso. Ansioso é a palavra, afinal iria reencontrar um amigo de quem fui muito próximo dos nove aos 23 anos. Nos encontrávamos duas, até três vezes por semana por causa do futebol.  Dos 23 até uns cinco ou seis anos atrás, nosso convívio não foi tão intenso, mas mesmo assim as lembranças de um tempo feliz, as alegrias e tristezas que vivemos juntos, nunca saíram da memória. E nunca sairão.

No metrô eu estava pensativo. Como meu amigo estaria agora. Ouvi dizer que ele mudou muito. Cheio da grana, fez até plástica. Disseram-me também que agora ele faz o estilão europeu. E o que mais me deixou cabreiro: meu amigo, que era tão popular, ficou meio esnobe, virando mesmo a cara para uma gente humilde que sempre esteve com ele, que com ele vivenciou emoções inesquecíveis.

Lá está ele, eu reconheci de longe.


Foto: Marcelo Migliaccio


O velho Maraca, pensei. Um pouco diferente... produzido, é verdade, mas é ele.


Foto: Marcelo Migliaccio


Certas coisas nunca mudam, nem com o passar dos anos. Resolvi não dar bola para as fofocas, para o que dizem das novas amizades do meu amigo com políticos e empresários. Chegaram até a envolver o nome dele em negociatas. Me recusei a acreditar. É ele! É ele!, eu disse a mim mesmo com um entusiasmo quase infantil de tão tolo.


Foto: Marcelo Migliaccio


 Mas, quando ficamos os dois a sós, comecei a notar as diferenças. Pra começar, ele encolheu, deve ser da idade. Meu amigo também anda meio solitário, deprimido. Cheio de... vazios interiores.


Foto: Marcelo Migliaccio


Suas amizades agora são outras. Festa estranha, com gente esquisita. Gente que não é daqui...


Foto: Marcelo Migliaccio


Das antigas amizades que tínhamos naqueles inesquecíveis anos 70, sobraram poucos. E não vieram para se divertir conosco, vieram para trabalhar.

Foto: Marcelo Migliaccio


Para não dizer que só vi um pobre enquanto estive lá, digo que vi dois. Olha o segundo aí.


Foto: Marcelo Migliaccio


Justiça seja feita, agora ficou melhor para ver o jogo, mais perto, se você tiver dinheiro para pagar os melhores lugares. É bom ver de perto um craque jogar, e hoje há muitos por aí...

Foto: Marcelo Migliaccio


... mas como idolatrar um jogador que, apesar de ser um dos maiores goleadores que já vi,  passa parte do jogo admirando sua própria imagem no telão do estádio? Na seleção do meu coração, Fred ainda é reserva do Manfrini. Porque o Manfrini era do Fluminense e o Fred é da Unimed. E eu sou Fluminense, não sou Unimed.


Foto: Marcelo Migliaccio


Os poucos que ainda se aventuram a tentar reviver um passado que não volta pedem aos profissionais mercenários de hoje que tenham a paixão clubística de antigamemte. Em vão, tudo mudou.


Foto: Marcelo Migliaccio


Meu amigo agora anda cercado de muitos serviçais...


Foto: Marcelo Migliaccio


Nem parece um estádio de futebol, mas um cinema de shopping center. A única diferença é que no shopping não tem cambista te oferecendo ingresso sob as vistas grossas de PMs e guardas municipais. Algumas coisas nunca mudam...


Foto: Marcelo Migliaccio


Foi um reencontro sem emoção. Meio constrangedor, não sabíamos o que dizer um ao outro, nem como proceder. Aos 50 anos, eu devia saber que tentar reviver um passado é um dos maiores erros do homem. O que passou, passou. Amizades também perdem a validade, chega um momento em que aqueles que um dia foram tão íntimos, nada mais têm a dizer um ao outro. Meu amigo perdeu a alma, agora é igual a tantas e tantas arenas insossas que surgiram por aí, sem história pra contar, sem um visual característico e sem o povo pra torcer.

No auge da nossa convivência, eu disse a mim mesmo uma vez: quando eu morrer, quero que minhas cinzas sejam despejadas aqui, dentro do Maracanã, onde vivi alguns dos melhores momentos da minha vida. Mas o que eu julgava impossível aconteceu... o Maracanã morreu antes de mim.


Foto: Marcelo Migliaccio

Bye bye.



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Homenagem póstuma a uma paixão
O fim do futebol

10 comentários:

  1. É meu caro Marcelo percebe-se que aos 50 anos você ficou nostálgico demais. Um dia desses Roberto Carlos, agora essa do Maracanã. Estive lá no dia 11/08 para assistir a vitória do Mengão sobre o Flu, afinal, sempre fui pé quente. Parecido com você assisto jogo no Maraca desde os meus 14 anos e na última vez que morei no Rio foi na Rua Jorge Rudge em Vila Isabel a 10 minutos do estádio. Mas antes disso, liso como sempre fui, assisti muito jogo de geral e se antes os ingressos menos caros ficavam perto do campo, hoje ficam distantes, mas são muito mais confortáveis e com visão privilegiada. Sempre tive inveja de meus amigos que assistiram jogo na Europa e destacavam exatamente o conforto e a qualidade do espetáculo. Nesse afã de criticar o novo estádio já vi muita gente dizer que tem saudade do "negão sem dente que ficava na geral". Acho isso de um proselitismo terrível e quero acreditar que hoje o negro colocou os dentes e assiste o jogo sentado, pelo menos quando pode pagar. Sei que faltam ajustes no preço e que a concessão da forma como ocorreu deve ser revista, mas confesso não ter saudade do tempo da geral em que assistíamos a partida na ponta do pé e com o pescoço esticado.

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    1. Eu não apregoo a volta da geral, mas acho que o estádio deveria ter um setor a preços populares, como era a geral. Isso não foi previsto pelos tecnocratas, que também poderiam ter modernizado o estádio sem demoli-lo quase todo, deixando apenas a casca original. Mas respeito a sua opinião por ser a de um aficcionado como eu pelo esporte.

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  2. Partilho do mesmo sentimento. Até parece vestido para cerimônia de gala. Arrumado e cheiroso. Mas cadê a emoção do abraço, daquele eco contagiante, vibrante que fazia a arquibancada sacudir?

    A magia da Ive Brussel foi substituída pelo elitismo Paris Hilton.

    Até o palavrão foi suspenso.

    A enxurrada de boas vindas começa na rampa de descida do Metrô (mãos gigantes verdes e locutores amadores fazem parte do comitê) e se alastra em torno do estádio. Prossegue na entrada do setor, com farta distribuição de balões coloridos que se transformam em chapéus, bichinhos, e também a tatuagem com as cores do time do coração, para que toda família se sinta em casa! Grátis? Espere só chegar á praça de alimentação para concluir que a pipoca subsidia a tinta guache.

    Mas velhos personagens continuam lá. Além da estátua do Bellini, os cambistas permanecem a solta. E se jogar lixo no chão, toma multa. Mas eu não vi a polícia recolher ao xilindró o equino mijão.

    Nem pense em escapar da revista da (o) polícial, que duvidando da precisão do detector de metal, ainda precisa apalpar o torcedor (a).

    Não deu pra ver o futebol do Frederico, mas as pernas... que pernas! Tanto, que fez a torcedora saltar e gritar seu nome, assim que ele entrou em campo, ignorando completamente o namorado que logo a repreendeu com um puxão pelo short, ao que ela prontamente reagiu:

    - pô, amor, é o melhor jogador do time!

    Em campo ficou devendo. Vamos ver em Flor do Caribe.

    Herivelton Martins mandava a nega economizar porque cinquentinha tinha que dar pra feira, pro bicho e para o futebol domingo no Maracanã. No tempo do Real, só sendo cliente Personalité.

    Do geraldino tiraram a diversão. Do velho Maraca extirparam o coração.

    A.R.

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    1. Resta o consolo de ver o jogo em boa companhia...

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  3. Não sou saudosista, mas ainda bem que tenho a lembrança de jogos no Maracanã, como Fla-Flu, que e inesquecível, e lá também vi em cena outros dois times que gosto, o Mequinha e o Fogão. O Maracanã acabou!

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  4. Se eltizou, me inclua fora.
    Gostava de ir a Feira Hippie de Ipanema, mas depois que o Jóquei "adotou-a", nunca mais fui.
    A Feira da Providência na Lagoa era ótima, agora a elitizaram e foi para o Rio Centro, abandonei-a.
    O mesma coisa serve para as festas juninas nas ruas, raramente se vê, está dentro de clubes e condomínios, estou fora !!. (A da Lauro Muller sempre sai briga).

    O Maraca já foi nosso !!

    Cury

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    1. "A da Lauro Muller sempre sai briga" kkkkkkk. Que ótima observação!

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  5. Hoje no jogo do Mengao vai ter ingresso a partir de 15 reais. Bastou precisar da torcida que o preço baixou. Espero que os outros clubes sigam o exemplo, afinal de que adianta estadio bonito e vazio? Ainda mais se tratando da maior torcida do Mundo.

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  6. SHOOOOOOOOOWWWWW DE BOLA MARCELO.....!!! belíssimo texto...!!! já te disse que quando o assunto não é o " PT " , vc escreve maravilhosamente bem rssss!!!

    Marcos Pinto de Oliveira - Jacarepaguá - RJ

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