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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Crime inacreditável de tão óbvio

Ninguém quer admitir que o garoto de 13 anos matou o pai, sargento da temida Rota, a mãe, também PM, a tia e a avó. Os apresentadores de programas policiais contestam a cena do crime. A família dos mortos desafia os peritos. O caso ganhou repercussão mundial. A ascensorista do shopping, desolada, resmunga olhando para o chão do elevador:

_ Não foi o menino, não foi o menino...

A perita criminal, que em 35 anos de trabalho viu os crimes mais abjetos, se recusa a crer nas evidências:

_ Nenhum de nós quer acreditar nisso.

Não há nada que sugira outra versão a não ser a apontada pelo delegado responsável. Tudo leva a crer que foi mesmo o menino. É difícil imaginar que outra pessoa tivesse sangue frio e tempo para armar tudo aquilo só para incriminar um adolescente.

O pai, apesar de policial, ensinou o filho, ainda criança, a atirar. Meu pai, meu herói...

A pistola usada no crime era da mãe, que, apesar de policial, ensinou o filho, menor de idade a dirigir.

Um tio, também PM, disse que sabia que o menor dirigia com permissão da mãe.

Havia outras quatro armas na casa, uma delas, que não a dos crimes, na mochila do garoto.

Um amigo do colégio disse que o provável assassino e único suspeito lhe confidenciou que planejava matar os pais e fugir para ser pistoleiro de aluguel. Outro amigo revelou depois em depoimento que horas antes de iniciar a chacina familiar o filho dos PMs lhe telefonou e disse que faria o que fez.

O garoto colecionava armas de brinquedo desde novinho.

Construiu um simulacro de colete à prova de balas de papelão para brincar.

Adorava um game violento em que um justiceiro mata a rodo para vingar não se sabe bem o quê.

Em várias fotos de família, ele aparece fazendo o símbolo do diabo com a mão.

Alguém pode dizer que muitos garotos gostam de games, brincam com armas de brinquedo ou fazem sinal satânico com a mão, que nem todo filho de policial fica neurótico. Mas todos esses componentes juntos...

O pai, membro de uma tropa da PM paulista conhecida por sua virulência, ensinou o filho a atirar, vale repetir. E acabou morrendo, ao que tudo indica, pelas mãos do filho às vésperas do Dia dos Pais.

Nas fotos da cena do crime tiradas pelos peritos, o garoto exibe uma expressão de choro após disparar contra a própria cabeça. Uma das principais reivindicações dos policiais é um sistema permanente de apoio psicológico para eles e suas famílias.

Que histórias esse menino ouviu em casa desde criança?

Que modelos ele tinha em casa?

Em meio a que conflitos interiores estava se consolidando sua personalidade?

É mesmo assim tão estranho que ele tenha matado a família e ido para a escola?



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6 comentários:

  1. Assino embaixo sua lúcida (na minha modesta conceituação) análise desta tragédia (nem os gregos imaginariam esta absurdidade...).Sem nenhum tipo de julgamento, considero que a soma dos fatores desestruturantes na (de)formação do pobre goroto... poderia, mesmo, dar neste ou outro nefasto resultado, afinal, figueiras só podem dar figos. O Brasil está tão americanizado ou copiando tanto o "american way of life" que parece coisa típica do violento universo estadunidense, lamentavelmente.
    Marcos Lúcio

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  2. Obviamente que, guardando as devidas proporções, isso me faz lembrar que atualmente as crianças desde pequenas convivem com músicas de duplo sentido do tipo "ai se eu te pego" ou "quero das uma "fugidinha" com você", só para citar as mais leves, e muitas vezes meninas incentivadas pelos pais repetem as coreografias sensuais sofrendo um processo de erotização cada vez mais cedo. Depois quando a filha engravida precocemente a mãe se pergunta: por que isso aconteceu com a minha filha...Ou seja, criam-se pequenos monstros e depois lamentam quando a tragédia acontece...

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  3. "Chacina em família: vizinha diz ter visto PM pular muro da casa dos Pesseghini antes de crime ser notificado. A mulher acrescenta que a casa da família morta estava sendo vigiada há meses Uma vizinha disse ter visto duas pessoas — entre elas, um policial militar fardado — pularem o muro da casa do casal[...] O post Chacina: vizinha viu PM pular muro de família morta em SP apareceu primeiro em Pragmatismo Político."

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    1. Bom, se esse depoimento for confirmado, abre outra linha de investigação.

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    2. Tomara que seja algo do tipo (o que não diminui a tragédia, mas fica menos impactante, digamos assim...) postado pelo Alexandre F. Corrêa e partam pra outro tipo de investigação. Viram ( a vizinha? )o policial pular o muro e se calaram???????Casa vigiada há meses e ninguém fez nada????????????????????/////
      Marcos Lúcio

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  4. Mauro Pires de Amorim.
    Ao menos, quem tem senso de realidade, seja ela qual for, há de concordar que um menino de 12 anos de idade cometer um crime dessa monta é no mínimo fora do normal, fora do padrão.
    Mas em nosso podre reino do Brasil acontece tanta coisa fora do padrão ou fora do contexto do bom senso, que realmente existe essa possibilidade desse pré-adolescente ter cometido crime de tal monta.
    Outra possibilidade diz respeito a igualmente podridão reinante nas instituições brasileiras, sejam elas públicas ou privadas, que criou o padrão de se imputar aos mortos a culpa por crimes de queima de arquivo ou de acobertamento.
    Os exemplos que ganharam as manchetes não faz muito tempo e que me vem à memória, foram o caso do Bateaux Mouche, onde culparam inicialmente o piloto da embarcação, que também morreu no naufrágio, pelas mortes causadas pela superlotação, enquanto que os gananciosos empresários ficavam livres para salvaguardarem seu dinheiro e fugirem.
    Outro caso idêntico de culparem o morto é o caso da morte de PC Farias e Susana Marcolino, atribuída como homicídio seguido de suicídio.
    O jornalista Vladmir Herzog também foi na época da investigação, atribuída como suicídio e embora hoje seja declarada como homicídio, os culpados não foram apontados e nem serão punidos pois estão protegidos pela lei da Anistia.
    Portanto, ainda há muita coisa de podre no reino do Brasil para ser apurada e aprimorada em termos de valores éticos e o mais cômodo, culturalmente praticado e historicamente aceito é se atribuir a culpa aos mortos para se fechar o caso de repercussão na imprensa, se mostrar uma eficácia e eficiência, ainda que seja falsa, de fachada e fingir que tudo vai muito bem e nada tem a ser aprimorado, evoluído ou modificado.
    Com isso, pode ser que o pré-adolescente de 12 anos tenha cometido o crime, mas pode ser que não tenha cometido o crime e estar sendo imputado por estar morto, afinal os mortos não prestam o mesmo tipo de depoimentos que os vivos, restando aos recursos dos legistas forenses e sua tecnologia inclinar para essa possibilidade ou não.
    Felicidades e boas energias.

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