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terça-feira, 26 de março de 2013

Recado para uma criança

Me dirijo agora principalmente a você, o aluno de 15 anos da escola municipal João Kopke, em Piedade, no Rio, que agrediu a socos a diretora, Leila Soares, na última sexta-feira pela manhã.

Ela veio reclamar porque você e o seu amigo estavam reproduzindo no pátio os golpes de um desses lutadores de vale tudo, ídolos endossados pela mídia e que viraram até bonequinhos nas vitrines nas lojas de brinquedo para as crianças comprarem e se divertirem.

Aí, eu sei, não deu pra segurar e você arrebentou a cara da diretora. Não adianta um desses lutadores profissionais ir para a televisão fazer campanha institucional pela não-violência, porque quando o sangue sobe alguém acaba partindo a cara de alguém. E dessa vez quem perdeu o controle foi você, garoto.

Claro que dois caras maiores de idade têm o direito de ir para um ringue, em comum acordo, arrebentar-se mutuamente. E se há gente disposta a ir até lá e pagar para ver aquilo, tudo bem. Mas transformar esses combates em espetáculos televisivos, pra mim, é um absurdo. Dizer que trata-se de um "esporte"é mais chocante ainda. Deveriam ser eventos privados, fechados e não públicos para todas as idades como se tornaram.

É isso aí, moleque, a mídia te serve violência dos primeiros desenhos animados da manhã até os últimos tiros dos filmes da noite. Você nem se dá conta, mas isso entranhou em você desde a mais tenra idade. Aos quatro anos, você já tinha visto centenas de homicídios e milhares de agressões de todos os tipos. Os Datenas da vida foram seus professores de barbárie, com a desculpa de que deveriam te informar da realidade. Sem cerimônia, te mostraram as cenas mais horrendas, gravadas por câmeras de segurança. Nos horários em que 20 anos antes exibiam programas infantis, passaram a veicular essas atrações policiais mundo-cão, com suas imagens de arrepiar. E a molecada lá, assistindo a tudo aquilo no tapete da sala.

Não tome isso como um incentivo (incentivo, aliás, nunca lhe faltou), mas na verdade, garoto agressor, você é uma vítima do lixo que despejaram na sua cabeça.

Com um cardápio desses quem eles esperavam que aparecesse para jantar? Mahatma Gandhi?

Só que agora, para a sociedade ávida por um Judas, você é o culpado, o criminoso, o monstro e nenhum de seus mestres, nenhum dos caras que ajudaram a forjar seu perfil violento e insensível, vai assumir a parte dele no problema.

Seus pais quase não têm tempo de prestar atenção em você. E, quando eles têm tempo, não têm saco para dialogar, explicar, conversar, ouvir, perguntar. Ou estão te ameaçando ou passando a mão na sua cabeça, culpados que são pela própria negligência. Fazer filho é uma delícia, mas criar é bem mais trabalhoso, requer dedicação, paciência e algum talento...

Quando você, moleque, cansou da TV, te deram um videogame e jogos em que se pode matar dezenas de pessoas a tiros de fuzil. Acostumado àquele universo, passado a você como algo corriqueiro hoje em dia, você achou uma delícia. Hoje, você quase não dorme mais, não sai do quarto, almoça e janta diante do computador, porque essa droga é poderosíssima. Pesquisas sérias no Reino Unido mostram que games violentos tornam adolescentes insensíveis. Isso, no entanto, não é divulgado como deveria na mídia que só te serve violência, sexo e fofoca o dia inteiro.

Mas, agora, "game over", garoto. A sociedade vai querer internar você num reformatório, te prender por causa do sangue que você arrancou do rosto da diretora. Mas, na verdade, são seus agora carrascos os responsáveis por você ser o que é. Eles fizeram a sua cabeça e você se tornou mais uma ovelha negra nessa grande família contemporânea. Na nossa família mal resolvida.

Só não precisa ficar muito preocupado. A memória aqui dura 24 horas. Amanhã, outro criminoso vai assumir seu lugar no topo do pódio da execração pública.

Até lá, porém, vão tratar você como uma exceção, um monstro, uma aberração, embora no Youtube haja dezenas de vídeos de pancadaria cruel entre adolescentes _ meninas disputando namorados inclusive. Acontece todos os dias entre estudantes da rede pública de norte a sul do país mas todos nos fazemos de cegos e surdos.

A secretária municipal de Educação do Rio declarou que seu ato foi "muito triste, inaceitável".

Foi o máximo que ela conseguiu dizer. Parece que nem é com ela. A violência dos alunos não é com ela, a erotização de meninos e meninas não é com ela, o vício em jogos de computador não é com ela, o desinteresse geral pelo estudo não é com ela...

É tudo com ela, sim! Mas ela não tem projeto nenhum para nada.

Se os pais não têm inteligência para ensinar os filhos a se defenderem do que a mídia despeja em suas cabeças, a escola, o estado deveriam fazer isso.

E não fazem. A educação pública no Brasil é um lixo e ninguém está nem aí pra isso. Professores mal pagos e mal preparados nada ensinam, o mestre mais eficaz é a televisão.

O mais triste é que tudo isso tornou-se muito normal, natural, inevitável. Todos nos tornamos cúmplices conformados dessa situação que piora a cada dia. Todos nós anestesiados, emburrecidos. Cada um preocupado em garantir o seu no fim do mês.

Os arautos da livre iniciativa e da liberdade de expressão decretaram que é proibido proibir. Censura virou o maior palavrão da língua portuguesa e assim todos os absurdos são permitidos aos meios de comunicação de massa. Eles podem tudo, e o resultado está aí: você, moleque!

Basta observar o comportamento de crianças e adolescentes nas escolas, tarefa para a qual raramente nos sobra tempo. Se o fizermos, veremos que espécie de futuro nos espera. Será que ninguém se dá conta de que estamos criando gerações e gerações de bossais truculentos e egoístas? As discussões ditas intelectuais, pilotadas por acadêmicos tapados, passam sempre longe dos reais motivos do problema.

As ditaduras militares só caíram de podres quando se descobriu que a TV era um meio muito mais barato e eficaz de manter um povo imbecilizado e inerte. Fatura-se milhões, bilhões e a raça humana se consome, de desintegra infestada de racismo, individualismo, sexismo, bairrismo, maledicência, corrupção, deseducação, desinformação, mentiras e muita violência.

Que tempo é esse em que é natural jogar o braço de um cara atropelado num rio, atirar um rojão na torcida adversária, torturar idosos durante assaltos, estourar uma lâmpada de tungstênio no rosto de um homossexual, matar os pais da namorada a pauladas, assassinar por causa de uma fechada de trânsito ou por uma diferença de sete reais na conta do bar...?

E, quando a classe média fica muito indignada e chocada com tanta barbárie, a mídia e os políticos organizam uma manifestação na orla, com todos os palhaços vestidos de branco a pedir um "basta" na violência. Alheio ao medo mesquinho dos almofadinhas de Ipanema e do Leblon, o povão do subúrbio, que também não sabe para onde correr, pula no colo do primeiro pastor evangélico que encontra pela frente. Para esses, é pedir socorro a Deus ou se afundar na cracolândia.

Não adianta agora baixar a maioriade penal para 16 anos. Do jeito que cultuamos e incutimos nas crianças valores tão baixos, em pouco tempo estaremos colocando na cadeia guris de 10 anos.

Vão te crucificar, garoto, para que seus nefastos formadores não tenham que pregar a si próprios na cruz.

Desculpe o pessimismo, garoto, mas parece que os índios Maias estavam mesmo certos em sua profecia: o mundo já acabou, só estão correndo os créditos finais.


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A cultura da violência

19 comentários:

  1. Fala, Marcelão! O mais triste vou te dizer agora, como nasci e fui criado no bairro, conheço bem aquela escola, apesar de nunca ter estudado lá. A João Kopke era uma escola mal vista, pois a galera do morro do Urubu estudava nela. Esta já deve ser a 3ª diretora agredida nessa escola, isso mesmo. E como sei disso? A minha vizinha, que era moradora do bairro, era diretora do João Kopke e ela também apanhou de aluno (levou muitos chutes). Acho que o nome do bairro é perfeito pra situação que vivemos hoje, Piedade.

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  2. De pé, bato palmas e assino por baixo, Marcelo. Na mosca.

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  3. Não há como discordar de vc. Yvesrangel

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  4. Por falar em pancadaria, não vai rolar um texto sobre o que aconteceu na Aldeia Maracanã? :o)

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    1. Mostrou a importância que os índios têm hoje para o governo do Rio e a prefeitura da capital: nenhuma.

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  5. Resta muito pouco a dizer depois deste texto, apenas dar os parabens pela lucidez e reconhecer que voce se superou. So nao concordo com o fim do Mundo, pois, como agnostico so consigo concebe-lo em escala geologica.

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  6. Quando leio um jornal ou assisto algum telejornal, chego a conclusão que o mundo acabou e que estamos mesmos nos acréscimos.

    A mídia deveria se perguntar: O que estamos incutindo na cabeça das pessoas?
    Ambições ou valores?
    Preconceitos ou princípios?
    Egocentrismo ou ética?

    O ser humano é a alma que carrega.
    Aquele jovem que matou 77 pessoas na Noruega tinha a aparência de príncipe e a alma de viking.

    A desigualdade social é uma das grandes causas da violência entre jovens.

    Mais uma vez, Marcelo está de parabéns pelo texto.

    Cury

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  7. É Marcelo, muita clareza mesmo. Límpido. Só não vê quem não quer.
    Mas se a gente não pensar em alguma saída. Não propor alguma saída, quem vai mostrar?
    Temos direito sim, de chegar perto do abismo, e olhar, e chorar.
    É doloroso mesmo.
    Mas desistir nunca!
    Ainda bem que existem as palavras.
    Quem as escreve.
    Quem as lê.
    Acompanho pouquíssimos blogs, na verdade, três.
    Gosto de fazer parte dessa turma que te lê.
    Às vezes, não concordo em absoluto com a opinião de alguém. Mas existe, por alguma razão, algo que nos aproxima, nessa escolha de ler o que você escreve.
    E, às vezes, uma reflexão sobre o que você escreveu, ou uma opinião de alguém, me acompanha nas idas e vindas da minha vida.

    Lembrei, mas esqueci o nome, de uma pessoa que disse: "A questão é o que eu faço no meu dia a dia, pra reforçar o que eu acho que existe de errado, ou o que eu faço para melhorar o que eu acho que está errado". Ela dizia que a gente tem que tomar uma posição.

    Aí fico pensando, às vezes, são coisas mínimas, que fazem uma grande diferença.
    Eu preciso acreditar na vida.

    Beijo grande!

    Sandra.

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  8. A descrição fenomenolo´gica para o trôpego caminhar da humanidade está em nível de Merleau-Pontty. A leitura da transversalidade causal do cáos em que estamos imersos, é puro Deleuze. O fim do mundo que você afirma, é Nietzche, em momento de radical niilismo. Em resumo, seu texto pulsa a trágica beleza dos grandes pensadores.
    De fato, o mundo está feio. Nós, as pessoas, no mais das vezes, sem percebermos, esculpimos nossos rostos com desenhos de impotência e indiferença. A vida segue. O mundo é esse.
    Fazendo um corte , na violência no âmbito escolar, não localiza-se, como assinala o texto , no Rio e brasil, mas, no planeta.Nas escolas agridem´se alunos, esses, agridem professores e outras figuras de poder nessas instituições. Pais e mães, sem o mínimo talento para esses papéis, juntam-se aos filhos na agressão á colegas de turma/escola e ás figuras de poder citadas.
    Recortando, ainda mais, a violência nas escolas, cito a ocorrência de três episódios semelhantes ao da escola de Piedade.

    Apenas no mês em curso, Professora foi agredida em sala de aula, por adolescente de treze anos, em Cabo frio, tendo algumas costelas fraturadas e poli-escoriações por todo o corpo. Aluna, com a ajuda da mãe e irmã, espancaram sem dó nem piedade, seu desafeto, até que essa perdesse os sentidos, alguns dentes, e fraturas vertebrais. O fato ocorreu em Rio das Ostras.. Detalhe: a fam´lia da agressora tinha passagem pela polícia, por motivo idêntico.

    E o que dizer do aluno de Psicologia, que atropela, não socorre a vítima e joga o braço amputado , dessa, num rio?

    Mais, não digito, para evitar tautologismo estéril.
    Finalizo, reafirmando, mais explicitamente, a profundidade crua e bela de seu texto.
    Parabéns, bicho,

    ANTONIO CARLOS

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  9. Prezado...Parabéns!!!, nunca, antes, na história deste país rsrs, havia lido um texto seu tão contundente, verídico e assertivo.Oportuníssimo colocando muito bem os pingos nos is e jotas.

    Porém discordo de que educação e bom comportamento ou civilidade, sejam papel da escola (claro que ela pode ajudar)ou da secretaria municipal de Educação.Escola é para aprendizado dos inúmeros conhecimentos . E olha que o tempo , e muiiiito menos o salário aviltante dos professores (ainda mais de escola pública...), não são suficientes para isto.Daqui a pouco vão achar que os professores terão de ensinar a tomar banho, andar de bicicleta, escovar dentes, etc., sem um centvo a mais por isto.

    Para mim, a culpa é dos pais, sim, pois já são desrespeitados pelos próprios filhos,e não lhes ensinam o fundamental respeito pelo ser humano, sobremaneira pelos mestres que serão os facilitadores do conhecimento, inclusive para uma profissão melhor no futuro. Realmente o bicho pegou . E olha que avisaram que o bicho estava pegando, hein? É de chorar ou de desanimar ou enlouquecer num primeiro momento.Mas enquanto houver coragem, luta e esperança, a vida pode e deve melhorar, senão inviabiliza, né?

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    1. Mas muitos pais não fazem o que deveriam, então a quem cabe tomar uma atitude?

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    2. Conforme disse, a escola pode ajudar. Mas ela não consegue (por razões óbvias) dar conta de ensinar e transmitir conhecimento (científico, inclusive).Os resultados dos baixíssimos índices de escolaridade e da imensa legião de analfabetos funcionais, além dos desrespeitosos ou ínfimos salários dos professores não deixam mentir. Mas resolver ou tomar uma atitude - assunto que daria panos para mangas-, com tantos órgãos governamentais sem dar conta disto, não seremos nem você nem eu a dar uma solução.

      Sugestão despretensiosa e certamente falha...não sou especialista: Cada ato de barbárie cometido por aluno...além da expulsão da escola, o pai ou a mãe ou o responsável têm de respondar criminalmente por isto.Até mesmo multa pesada,ou prisão, se for o caso. Mas, antes, uma propaganda institucional forte -e de longuíssima duração, de preferência sempre-na telê deixando isto muito bem claro para a população. Assim, mesmo os pais relapsos (tomara que não seja a maioria absoluta), seriam obrigados a educar ou amedrontar os monstrinhos que eles criaram ou permitiram , né?

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  10. E aí, Marcelo!

    De novo, Parabéns!

    Quero tratar, hoje, mais dos comentários que de sua crônica/desabafo/?.
    Li muitas vezes a palavra "culpa". Não gosto dela, prefiro "responsabilidade".
    Como você afirma, a responsabilidade é de todos nós, no entanto quando leio que são necessárias pequenas ações quotidianas, concordo em parte: claro está que elas devem acontecer (eu mesma, as pratico), mas acho que o primordial seria um projeto com atitudes articuladas e, sim, censura (quem disse que ela é antidemocrática? Ela, quando defende a democracia e os direitos individuais, deve ser praticada sem medo), naqueles mecanismos geradores de violência, apatia e idiotização.
    Talvez por ser professora do Ensino Médio há 33 anos reflito e atuo muito sobre o tema, mas sempre me preocupa como a crise das utopias está atingindo a ação coletiva coordenada. Ai que saudades do Darcy Ribeiro!!!
    Mas, vamos lá! Não desanimem! Já vi muita coisa feia na vida e sei que damos conta se nos dispusermos a agir (coletivamente, é claro!).

    Um abraço fraterno a todos,

    Wanda Rodrigues

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  11. Marcelo, essas suas linhas deveriam ser leitura obrigatoria nas escolas (oops, vao chamar de dirigismo, vies ideologico e outras tontices).
    Fica o misterio a ser desvendado: como organizar um fio minimo de consciencia social
    para questionar, debater, propor mudanças.
    Parabens pelas linhas de lucidez no meio dessa realidade abrumadora.

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  12. O globo fez uma entrevista com os dois protagonistas.do caso. Vale a pena dar uma lida.

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  13. Marcelo, simplesmente você consegue expressar com convicção que nós (principlamente os pais) somos os responsáveis por esse caos. So discordo de um ponto. Se quisermos temos como mudar essa quadro. Só depende de nós. Parabéns. Que Deus o abençoe!
    Alcinete Campos






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