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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Amor e eutanásia

Acho que só vamos saber mesmo se Deus existe depois de mortos. Isto é, se ele de fato existe, porque senão não vamos saber de mais nada depois de mortos. Por via das dúvidas, quase todas as noites rezo um Pai Nosso e uma Ave Maria.

Rezo com sinceridade, afinal na hora do aperto é o que nos resta. Até o ateu mais agnóstico cai de joelhos quando a coisa aperta. A maioria, no entanto, cai de joelhos antes de a coisa apertar, já que o ser humano precisa acreditar que tem alguém lá em cima zelando por ele e por seus entes queridos.

Alguém que impeça, por exemplo, que um coco ou um meteorito caia bem na sua cabeça.

O ser humano é muito vulnerável. Pode morrer pisando num buraco na calçada ou tomando uma aspirina. Ou ser varrido em poucos meses por uma moléstia incurável. Ou levar um tiro de um assaltante... enfim, estamos à mercê do acaso e uma força superior veio bem a calhar para nos deixar pelo menos um pouco mais tranquilos.

Até acho que Jesus Cristo existiu, mas acho também que a Bíblia pode ser um dossiê mistificador elaborado e modificado por oportunistas através dos séculos para perpetuar uma eficiente forma de poder e de geração de renda: as religiões. O "apóstolo" Valdemiro Santiago, por exemplo, líder da evangélica Igreja Mundial, estaria comprando a rede CNT de televisão. Centenas de pessoas vão à frente das câmeras dele se declararem curadas dos mais variados males. Não duvido, pois a nossa força interior pode ser despertada até mesmo por um aproveitador com boa retórica.

Cristo deve ter sido apenas um cara bom caráter num tempo em que a barbárie campeava. Como campeia agora, aliás. Não creio que alguém possa abir um caminho no mar ou curar a cegueira alheia com um toque das mãos Só vi essas coisas até agora nas escrituras sagradas ou nas histrórias em quadrinhos dos super-heróis Marvel. Mas creio que a energia positiva tem um poder que nós, humanos, sequer podemos imaginar. E, como disse o outro, que, diga-se, também não era nenhum santo, "gentileza gera gentileza".

Já a igreja criada pelos homens só faz encher nossa cabeça de dogmas que não se sustentam diante de uma análise minimamente atenciosa. A condenação do clero à eutanásia, por exemplo, cai por terra com um inquietante filme em cartaz: Amor. Na história, um casal de octagenários é surpreendido pelo derrame da mulher, que fica com metade do corpo paralisado primeiro e, em seguida, involui para um estado quase vegetativo. Quase porque ela ainda se mantém capaz de sentir dores e de pedir, clamar pelo fim daquele sofrimento.

O velho até tenta contratar uma acompanhante cuidadora, mas não dá sorte e acaba demitindo a moça, não sem antes desejar-lhe que encontre alguém que a trate na velhice como ela tratou sua esposa doente.

Heróica e apaixonadamente, o velho se desdobra para cuidar de sua amada de tantas décadas. No decorrer do filme, porém, sem forças físicas e psicológicas para carregar aquela cruz, ele põe fim ao duplo calvário sufocando a mulher com um travesseiro.

Assassino?

Quem pode condená-lo?

Só a igreja e suas ovelhas mais obtusas.

12 comentários:

  1. Caro Marcelo,

    como vai?
    Este filme é, realmente impressionante. Faz com que a hipocrisia e o falso amor se denudem e, delicadamente, aponta o que é verdadeiramente o amor: permitir a dignidade do outro.

    Um abraço fraterno de sua admiradora fiel,

    Wanda Rodrigues

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    1. Valeu, Wanda, assista As Sessões, acho que você vai gostar. Abração

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  2. Esse filme é mesmo forte e arranca lágrimas.
    Ontem mesmo, quando voltei do cinema, encontrei o amigo e vizinho Marceu Vieira, jornalista do Globo, e comentei sobre esse filme, ele se interessou em assistir, e por ser francês o torna ainda mais bonito (sou fã do idioma).
    Falei sobre esse blog do Marcelo, que também é jornalista, e sugeri que ele desse uma olhada de vez em quando.

    P.S. Se a igreja aceita a renuncia do Papa, deveria aceitar o divorcio !!
    Se ambos são "ungidos por Deus", porque um pode acabar e o outro não ??

    Cury

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  3. O belo filme, realmente, ilumina a questão tão controversa , presente em toda reflexão que, nós, pensantes, encetamos e a IGREJA, condena. Pessoalmente, sou favorável. Posição idêntica, possuo quanto ao suicídio. Acredito que a vida só merece esse valor, quando o SUJEITO-VIVENTE exercita em plenitude a responsabilidade por seu SER- ESTAR-NO MUNDO..
    Desde Émile Durkeim, conhecemos as diversas motivações do suicídio, que, não implica , necessariamente, na negação de DEUS . Pela lente da IGREJA, ambos, eutanásia e suicídio, são pecados, que condenam seus SUJEITOS á fogueira do INFERNO..
    Claro está, como seu texto coloca, são decisões extremas, muitas vezes, como no filme, de EXTREMA LUCIDEZ.
    A vida é para a vida e não, para seus simulacros. Reduzir a vida ao fato respiratório e/ou atividade cerebral inóqua, parece-me estreiteza de percepção nutrida por dogmatismos religiosos.
    Quanto á Jesus, creio, ter sido um visionário do BEM, um SOCIALISTA, como nunca existiu. As curas á ELE atribuídas, possivelmente, ocorreram. A sinergia entre Fé (não necessariamente religiosa) e o que ou quem a move, opera milagres, há algum tempo, pesquisados pela CIÊNCIA..
    Em minha pasagem pelo PLANETA, ambas as possibilidades, suicídio e eutanásia( levada a termo por alguém que me ame) são consideradas com naturalidade. Afinal, o exercício do livre arbítrio, é, em meu juízo, a principal razão da vida humana.

    ANTONIO CARLOS

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  4. A meu ver, Deus existe e para constata-lo não é preciso experimentar a morte, pois ele se mostra todo tempo, em todo lugar, em todo ser vivente e em todas as coisas, independente de como o chamamos. Nomes são muitos e variam no decorrer da história, mas nele reside a explicação para o inexplicável. O erro do homem é querer apropriar-se de suas palavras e ensinamentos para o interesse próprio e o exercício do poder sobre o outro. Afinal todas as grandes religiões bebem na mesma fonte. A interpretação e o discurso é que mudam de acordo com seu projeto de poder e dominação.

    A eutanásia como gesto de amor, Amor maiúsculo, é a reflexão que nos propõe o filme francês, com toda lucidez e seriedade que a questão merece. Trata-se não de um duelo maniqueísta, mas do exercício responsável do livre arbítrio.

    O filme me lembrou do livro Carta para D, uma história de amor, último livro do filósofo e jornalista André Gorz, que é dedicado à sua esposa Dorine, com a qual viveu por 58 anos, e por quem abriu mão da própria vida, pois sem sua companheira - vítima de uma doença degenerativa - não havia mais nenhuma razão para continuar vivo. André não cometeu eutanásia, mas o suicídio duplo.

    Comprei esse livro para presentear a quem amo, porque apesar do fim trágico, ele é antes de tudo uma declaração de amor e na prática, uma prova de que "a vida mais que uma doação é um caminho de escolhas.”.

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  5. Na linha do Ariel vou citar uma frase atribuida a Trotsky e bastante oportuna: Deus eh a maior forma de opressao que a mente humana foi capaz de criar!!!

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  6. Além de Deus, ainda tem o capeta. Aí sim a coisa fica séria! Passar a eternidade num lugar mais quente que Bangu e ainda levando espetada no rabo, aí cumpade, o bicho pega pra valer. Teu blog é 10, parceiro!

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  7. Irretocável seu texto e imperdível o brilhante e comovente (com zero de pieguismo, ou de fofura da velhice... ainda bem!) filme francês (bien sûr!).

    A propósito, o texto de Cân­tico dos Cân­ti­cos – “O amor é forte como a morte” (Ct 8.6) – nos apre­senta as duas mai­o­res for­ças da natu­reza: o amor e a morte – Eros e Tha­na­tos.Só há uma força capaz de ten­tar matar o amor: a morte – que nos separa das pes­soas que ama­mos. Entre­tanto, há uma única força capaz de sobre­vi­ver à morte: o amor – por­que o fato de nos sepa­rar­mos de quem ama­mos(não necessariamente o/a amante) não nos impede de con­ti­nuar a amá-lo/a. O amor sobre­vive à morte por­que con­ti­nu­a­mos amando a pes­soa que mor­reu. E, no nosso amor, ela con­ti­nua a viver para sem­pre. Que Deus nos ajude a hon­rar­mos a sua memória.

    Mas que ninguém se iluda: nesse teatro/filme AMOR... se desenrola a mais universal das tragédias, a erosão da carne e do intelecto, a condição finita e frágil da vida, onde o gesto extremo de violência é também o do mais puro amor.E com a divina música para "equilibrar".

    Se, em várias obras, o diretor Haneke se interroga sobre a origem e a natureza do mal, em Amor... o mal não tem origem nem autoria, é a própria condição humana, precária e finita.
    Marcos Lúcio

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  8. Esqueci de comentar que a blogueira foi recebida no congresso pelo Bolsonaro.

    Se ela soubesse quem é ele, voltaria correndo para Cuba !!!.

    Cury

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  9. Aproveito a deixa para indicar o romance de Saramago, O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO. Não vai converter ninguem, mas em compensação vai lhe oferecer momentos de muito humor. Yves Rangel.

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