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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Breve encontro

Foto: Marcelo Migliaccio


Uma tia querida partiu ontem. Aos 92 anos bem vividos, não vivia. Jazia em casa. Quando o ar faltou mais uma vez, a família decidiu que não haveria hospital.

Para quê entubá-la novamente?

Para quê mais agonia?

Seus olhos cansados pediam um ponto final.

A medicina é uma ciência exata, mas o ser humano é inexato. A aspirina que mata um é o remédio diário de outro...

Quando o avião balança não há motivo para pânico se pensarmos que podemos estar nos livrando de UTIs, quimioterapias e pontes de safena, tudo depende do ponto de vista. Talvez seja melhor cair fora assim, de supetão.

E a tia Dulce se foi.

Já que esse mistério todo da vida só será desvendado após a morte, e que a única certeza que temos é o agora, não dá pra perder tempo com brigas e discussões. Melhor aproveitar esse breve encontro com quem amamos para, simplesmente, amar. Não há provas (pelo menos pra mim) de que voltaremos a nos encontrar.

Uma árvore pode viver centenas de anos, uma montanha, milhões. Mas nós raramente passamos dos 80, 90 (se for muito azarado, chega aos 100). Muito curto esse encontro, muito curto. Por isso é muito difícil tomar a decisão de abreviar a vida mesmo quando a saúde vai embora antes.

Aliviamos o sofrimento do nosso cachorro, que faz parte da família, e do cavalo que não aguenta de dor no estábulo. Mas nossos semelhantes,  deixamos sofrer, assombrados por dogmas médicos e religiosos e pela sensação de que não fizemos e dissemos tudo que gostaríamos.

Em vez de fugir desesperadamente da morte, que tal aproveitar a vida?



Leia também:

Reflexão sobre a morte

Outro filmaço: 'Melancolia'

25 comentários:

  1. Totalmente sensato e de bom tom seus comentários e reflexão sobre a morte, que a terra seja leve para sua tia,
    meus pêssames,
    um abraço
    Pedrosa

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  2. Diz um amigo meu na faixa dos 70 anos, que se aprende mais indo à um velório do que uma festa.
    Sergio.

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    1. Melhor que velório é dar umas voltas no cemitério sem ter perdido alguém naquele momento, relaxado, só pra refletir. Assim aprendi muito sobre o que fazer da minha vida.

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  3. Totalmente de acuerdo con toda la nota. El "assanhamento" médico usualmente es el peor remedio. Abrazo, Fernando Gras

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  4. Lindo e emocionante texto, Marcelo. Admiro você pela sensibilidade e inteligência.

    Você me ajudou a enxergar que, às vezes, tenho me boicotado em relação a viver o momento atual. Sinto saudades até do que não aconteceu. Por exemplo, dos bons momentos que vivo, no presente, com meus pais e minha filha adolescente. Acho que é tão bom esse momento, que, em vez de só curti-lo, sinto uma saudade! Ainda bem que é só às vezes! Beijos, Denise.

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  5. Em uma certa ocasião, conversando com um senhor de mais idade, em um determinado momento da conversa ele me disse algo e eu respondi: "vivendo e aprendendo", e ele replicou: "e morrendo sem saber". Nunca mais esqueci isso, não sei por que. Acho que ele quis dizer que
    por mais que a gente viva e aprenda muitas coisas, ainda assim saberemos muito pouco. Pena que a gente perde muito tempo se preocupando com coisas que não têm nenhuma importância e só nos privam de aproveitar o pouco tempo que temos aqui. Pior ainda são aquelas preocupações que nem existem mas que nós materializamos em nossa mente, e por isso também deixamos de aproveitar a vida.

    Marcelo, meus sentimentos pelo que aconteceu com sua tia.

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  6. Lendo o que voce escreveu mais ainda creio que deveriamos ser mais caes e cavalos do que pessoas pois, como seres humanos, na verdade somos burros e egoistas ao manter ao nosso lado uma pessoa que sofre...

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  7. Seu post está excelente e a história da sua tia_meus sentimentos_ lembrou-me um grande filme francês: E se vivêssemos todos juntos? (sobre velhice e morte com dignidade). Como a morte é o destino inexorável de todos os humanos vivos, prefiro dar voz e vez a quem refletiu beem melhor do que eu, e com sagacidade, sobre este tema, demasiado humano. Ele incita os mais atentos _ justamente pela provisoriedade da existência_ a buscar melhor qualidade de vida, antes que seja tarde.

    Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que eu encontrei para me ajudar a fazer grandes escolhas na vida. Porque quase tudo – todas as expectativas externas, todo o orgulho, todo o medo de errar – cai diante da face da morte.

    (Steve Jobs)

    Já viste, numa tarde de Outono, cair as folhas mortas? Assim caem todos os dias as almas na eternidade. Um dia, a folha caída serás tu.
    (Josemaria Escrivá)

    Aos “outros”, a morte paralisa-os e espanta-os. – A nós, a morte – a Vida – dá-nos ânimo e impulso. Para eles, é o fim; para nós, o princípio.
    (Josemaria Escrivá)

    Podemos fazer que a morte não chegue antes da morte. Porque há muita gente que atolou nessa falta de vontade de viver, morre muito antes de morrer, vive morta uma boa parte da sua vida e, assim, quando a morte chega, já nada tem para fazer, já encontra o seu trabalho feito. Exagerado, não é? Penso que o homem, já que não pode fugir da morte, pode, ao menos, lutar para atingir os níveis máximos da vida no tempo que lhe foi concedido.

    (José Luis Martin Descalzo)

    Quem organiza a sua vida como se não houvesse a morte não está bom da cabeça…
    (Autor desconhecido)

    Possuis apenas aquilo que não perderás com a morte; tudo o mais é ilusão.
    (Autor desconhecido)

    A vida revela-se ao mundo como uma alegria. Há alegria no jogo eternamente variado dos seus matizes, na música das suas vozes, na dança dos seus movimentos. A morte não pode ser verdade enquanto não desaparecer a alegria do coração do ser humano.
    (Tagore, escritor indiano)

    O homem fraco teme a morte, o desgraçado chama-a; o valente procura-a. Só o sensato a espera.
    (Benjamin Franklin)


    "Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe." (Oscar Wilde)

    Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde.
    E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido.
    Dalai Lama

    Abraço
    Marcos Lúcio

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  8. Já disseram que o homem vem ao mundo por um período curto,para um fim que ele mesmo ignora,embora às vezes julgue saber. Como também não creio em um reencontro após a morte,penso que resta-nos fazer o melhor possível por aqui,uma vez que o ser humano é produto perecível.
    No mais,meus sentimentos e muita força para você e sua família neste momento difícil.

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  9. Oi, Marcelo!

    Também perdi um familiar (meu irmão mais velho) recentemente e sinto a dor de não ter dito tudo que eu deveria.
    Estou me virando, mas como você, não acredito em outra vida e, assim procuro mais ainda estar com os meus.

    Abraço forte,

    Wanda rodrigues

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  10. Nada Fica

    Nada fica de nada. Nada somos.
    Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
    Da irrespirável treva que nos pese
    Da humilde terra imposta,
    Cadáveres adiados que procriam.

    Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
    Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
    A que um íntimo sol dá sangue, temos
    Poente, por que não elas?
    Somos contos contando contos, nada.
    Ricardo Reis

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  11. Prezado Marcelo, aquele abraco.
    Duilio

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  12. Mauro Pires de Amorim.
    Prezado Marcelo, minhas sinceras condolências pela partida de sua tia Dulce.
    Recentemente, em 02/08/2012, meu pai partiu também. Entendo seu texto perfeitamente, pois meu pai vinha lutando conta o cãncer há 2 anos, tendo passado por quimioterapia, radioterapia, cirurgias, diversos procedimentos médicos.
    Nesse período, ele teve 3 graves pneumunias devido à baixa imunidade. Isso sem falar nas infecções oportunistas de pele. Tudo isso em função da quimioterapia e da radioterapia. Além disso, houve também o definho físico de cerca de 25Kg, passando dos quase 90Kg para cerca de 65Kg. Isso para um homem de 1,85m, causa um choque visual em quem o conheceu antes da doença se manifestar, além de claro, na própria pessoa atingida, ao perceber sua evidente decadência.
    Meu pai aos 76 anos de idade, périodo em que a doença manifestou-se, era um homem de aparência saudável, com abundantes cabelos, sendo poucos deles brancos, relativamente comparando com sua idade. Dois anos depois, aos 78, quase 79 anos, quando deu veio a falecer, estava com a cabeça toda coberta de não mais tão abundantes cabelos, sendo todos, sem exceção, brancos. Outro efeito causado pela quimio e radio terapia.
    Tal situação, foi um verdeiro calvário torturante de uma morte lenta, pois o câncer evoluiu para estado metastásico, onde não há solução. Eu estando ciente de tal situação e sabedor de que na Argentina em 09/05/2012 fora sancionada lei autorizando a eutanásia para casos comprovados pela junta médica do paciente e analisados pela junta médica argentina que viria a autorizar a prática eutanásica, por tratar-se de estado de doença incurável e terminal, nos termos de tal legislação, que segue a tendência dos demais países onde tal prática é permitida, cheguei a cogitar juntamente com a atual espôsa dele, tal possibilidade.
    Mas claro, isso não dependeria somente de nós, nem dos médicos que o tratavam. Dependeria também dele assim desejar e isso ensejaria ter que colocar a situação para pessoa tão querida e amada, sem de maneira alguma, exercer qualquer tipo de pressão, como quem quer livrar-se de um fardo, coisa que meu pai, jamais foi. Mas diante de todo seu sofrimento e perante o quadro clínico, eu por amor e como forma de clemência, cogitei tal possibilidade.
    A hipótese da eutanásia não se concretizou, vez que, os médicos necessitariam de uma ambulância aérea para transporta-lo até a Argentina, pois não havia a menor possibilidade dele viajar em avião de carreira convencional, tamanho seu estado de saúde frágil. Além disso, necessitaria-se também, de hospedagem para ele, familiares, médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem do "homecare" naquele país e tal feito logístico seria inédito no plano de saúde brasileiro, que igualmente necessitaria de convênio mais sólido e profundo na Argentina.
    Enfim, meu pai resistiu da melhor forma que pode a toda essa situação e faleceu aquí mesmo no Rio de Janeiro, local onde também nasceu. Confesso que fiquei aliviado por seu sofrimento ter finalizado, mas por outro lado, sinto saudade de sua existência física, mas quando isso ocorre, recorro a minhas memórias, sempre lembrando dos bons momentos que tive com ele e que não foram poucos. Os maus momentos foram raríssimos, irrelevantes, esporádicos e espaçados e maus momentos, são feitos para não serem cultivados, especialmente tratando-se do meu pai, a quem eu na idade adulta, considerava meu melhor amigo.
    Felicidades e boas energias.

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    1. Seu depoimento é tocante, Mauro. Lamento pelo seu pai e pela dor de toda a família. Sei que a decisão da eutanásia é dificílima, porque a vida é algo grandioso, inexplicável, único e dar cabo dela espontaneamente contraria todos os nossos princípios de humanidade. Desejo que vocês tenham força para se recuperar do sofrimento passado e que seu pai descanse em paz. Um abraço, amigo.

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    2. Estou um pouco longe na belissima Chapada Diamantina e com poucas oportunidades de acesso, mas nao tive como nao me emocionar com os depoimentos do Marcelo e do Mauro. O fato de estarmos convencidos que vida eh uma so e finita, nao impede que ela seja vivida em plenitude ou que se perpetue atraves das memorias.

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    3. Mauro Pires de Amorim.
      Obrigado Marcelo e mais uma vez, meus sinceros pêsames a você e todos seus familiares pela partida de sua tia Dulce.
      Muita paz, felicidades e boas energias.

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  13. Conheci a perda muito cedo, aos 19 anos perdi meu pai.
    Amadureci muito nos anos seguintes, e até hoje, quase 30 anos após, sinto que ele faz tanta falta em minha vida.

    Nunca morre que no coração de alguém vive.

    Cury

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    1. É incrível mesmo como a falta está sempre se fazendo sentir.

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  14. Marcelo , sinto muito pela partida da sua tia Dulce . Pela idade já avançada e debilitada ,
    foi um descanso pra ela .Agora ,está em paz .Como sabemos , só o tempo cura essa dor .Desejo muita força neste momento dificil e como disse o Cury , ela estará sempre
    viva no seu coração !

    Como não posso fazê-lo pessoalmente , envio um abraço bem forte .

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