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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Testemunha ocular da escória

Ontem, eu vi, com esses olhos que a terra há de digerir, um homem capotar com seu carro e ser lançado pelo teto solar a seis metros de distância.

Vi também uma briga de vizinhos em que um deles, deficiente físico, foi espancado.

Também assisti a um guarda penitenciário dar tiros para o alto dentro de um restaurante lotado. O motivo? Uma garota pisou no pé dele.

E testemunhei um pastor evangélico abusar sexualmente da neta de 12 anos em casa, depois de pregar a palavra de Deus no culto.

Ah, ia me esquecendo: vi ainda uma dupla de assaltantes levando duas reféns para comprar artigos esportivos para eles com seus cartões de crédito.

Nem precisei sair de casa. Bastou ligar a TV num desses programas policiais do fim da tarde para atestar a quase onipresença das câmeras de segurança espalhadas pelas cidades do Brasil e do exterior. Inibir o crime, esses equipamentos de gravação não inibem, mas fornecem material quente para os noticiários televisivos diariamente. Todos os dias, os mais chocantes flagrantes chegam às telas das TVs e são mostrados sem cerimônia, a despeito de grande parte do público do horário ser formado por crianças.

Há alguns anos, fizeram um estudo nos Estados Unidos e constataram que, antes de completar quatro anos de idade, uma criança americana já tinha visto mais de mil homicídios pela TV.

Ligar a televisão num desses programas é um perigo. De repente, você pode ser confrontado com uma imagem horrível, sem aviso prévio, e ver algo que vai demorar para sair da sua memória. Se é que você um dia vai esquecer aquelas cenas.

Talvez por isso, a primeira recomendação dos médicos aos que sofrem da cada vez mais comum síndrome do pânico seja a seguinte: "desligue a televisão!".

O festival de horrores do nosso dia-a-dia é decantado em prosa e verso pelos apresentadores sensacionalistas, que dão sua contribuição vocal para que o pandemônio pareça ainda mais dantesco.

E você fica lá, pensando que aquilo tudo poderia acontecer com você ou com um parente seu.

É até compreensível que muitos comerciais nos intervalos desses programas seja de... agências funerárias! São pelo menos três delas anunciando freneticamente a cada intervalo.

Não é de espantar que nenhum desses telejornais vespertinos tenha divulgado os nomes das seis empresas do ramo de cadáveres envolvidas no escândalo da violação de sepulturas em cemitérios do subúrbio, descoberto pela polícia recentemente. Ávidos por mais dinheiro, os coveiros violavam túmulos antes do prazo legal, jogavam os restos mortais no lixo e revendiam o espaço por um preço maior...

Os slogans para os planos de previdência mortuária que invadiram os intervalos até que são bem imaginativos... e cavernosos:

"Por que você nunca sabe quando vai precisar..."

"Com você sempre..."

Tiraram até a atriz Eva Todor de sua aposentadoria para que ela anunciasse uma dessas empresas ao lado do veterano ator Franscisco Cuoco. Dizem que o ex-galã das novelas da Globo cobrou de cachê para anunciar a funerária o dobro do que sua colega, Suzana Vieira, ganhou para fazer aquele comercial de fixador de dentadura.

Na propaganda, falando com dificuldade, a Eva fica dando alfinetadas no Cuoco enquanto ele fala seu texto.

_ Você não se lembra mais de nada, esquece tudo! _ ralha a anciã com seu colega de profissão.

É até engraçado.

Bom, eu, do meu lado, estou diante de um dilema:

Ou não assisto mais a esses programas apocalípticos, ou faço um plano de atendimento pré-pago na funerária "Já Vai Tarde", uma das melhores do mercado...

Briga na rua em Copacabana/Foto: Marcelo Migliaccio
Não se pode mais nem brigar em paz que vem alguém fotografar...

11 comentários:

  1. O pior de todos é o Datena. O cara parece que sente prazer em noticiar desgraça.

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  2. Ah, lembrei de um que é pior do que o Datena: tem um apresentador (ou ex-apresentador) de programa policial no (se não me engano) Amazonas, que mandava matar as pessoas só para ter o que mostrar no programa.

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    1. Taí um cara que veste a camisa da empresa mesmo...

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  3. parece ser o que as pessoas querem ver na verdade. Noutro dia não vi em telejornais falar sobre o casal de moradores de ruas que ao devolver 20 mil achados por eles ao dono de um restaurante e do dinheiro recebeu dele uma oferta de emprego. Notícia bonita, que reforça a dignidade humana não atrai mais. Um abraço, Artur

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    1. Essa eu até vi num telejornal, mas a regra é que desgraça vende mais.

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  4. Tristes e violentos tempos. Pobre mídia, principalmente, televisiva. Vários programas que vivem da morte, em diferentes níveis, devem, de fato, ser evitados por pessoas com Síndrome de Pânico ou com predisposição para a mesma.
    Interessante, em meu exercício profissional, no fim dos anos 1990 até mais ou menos, 2003, tratei de várias pessoas acometidas pelo citado sídrome. As pessoas em questão eram de várias faixas etárias, prevalentes no sexo masculino, com algo em comum: todas possuiam escolaridade superior, ou estavam cursando alguma faculdade.

    Quero sugerir dois textos da coluna Sociedade Aberta do JB, de hoje, que tratam de crimes, em níveis diferentes O primeiro, FRASES de CABECEIRA, de Wander Lourenço; o Outro, AONDE QUEREM LEVAR A PROFISSÃO MÉDICA, de Antonio Celso Nunes Nassil.O primeiro deles, retrata a psicopatologia da atualidade,sendo alguns personagens, nossos conhecidos virtuais de alguns blogs, não é mesmo?

    Antonio Carlos

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    1. Boa sugestão, Antonio, mas não estou mais no JB. Abraço

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  5. O fato de você não estar mais no JB, implica em não ler nada que seja veiculado alí? Caso seja sua posição, respeito-a, porém, considero-a auto- limitante. Afinal, o jornalismo é seu saber-fazer-viver e qualquer matéria interessante e não facciosa, o caso de ambas, creio que seria de seu interesse. Minha sugestão não foi unicamente direcionada á você, mas á qualquer leitor de seu blog, que deseje acessá-las.

    Abraço.

    Antonio Carlos

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    1. Claro, na pressa entendi que você estava sugerindo que eu colocasse na coluna. Abraço

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  6. Como não vejo "telê", concordo com os textos excelentes publicados no JB, indicados pelo atento comentarista, o sr. Antônio Carlos. Ótima e oportuna sugestão dele.
    Marcos Lúcio.

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