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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Revista com rabo preso

Fim de festa na Lapa (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio


Aquela revista semanal que pensa que todo leitor é cego colocou nas ruas mais uma edição emblemática do tipo de jornalismo que pratica.

A reportagem principal é sobre o consumo de álcool por menores de idade, o que não é novidade nenhuma, afinal há anos o Brasil é palco do festival de porres que crianças e adolescentes brasileiros vêm tomando.

Em todo o texto não há, claro, nenhuma menção à farra de anúncios de cerveja na TV a qualquer hora do dia. A pretexto de patrocinar programas esportivos, a maior fabricante do Brasil anuncia fartamente suas marcas para o público infantil, exatamente como as companhias de cigarro faziam até meados dos anos 80, contribuindo para arraigar o hábito do tabagismo em várias gerações.

Proibiram a propaganda de cigarro e o demonizaram mundialmente, mas o álcool continua com seu salvo conduto para formar novos consumidores.

Qualquer trabalho jornalístico minimamente comprometido com a isenção não pode abordar esse fenômeno dos nossos dias sem tocar no tema da publicidade de álcool. Mas são muitos milhões em jogo e eles acham que nenhum dos seus leitores vai reparar na crucial, conveniente omissão.

Nas propagandas, atores, atrizes, corpos atléticos e esculturais, ídolos do esporte e animações engraçadinhas para divertir a criançada. Em quase todos os comerciais é mostrado consumo em excesso, a despeito daquela frase dita às pressas, bem baixinho, no final do comercial ("beba com moderação").

Não sou contra o álcool ou nenhuma outra droga. Acho que todas deveriam ser legalizadas, pois decidir consumir ou não é um direito de cada cidadão (adulto). Mas, com certeza, nenhuma droga, nem a bebida alcoólica, precisa de anúncio, muito menos na TV em horário vespertino e matutino.

Eu não esperava que a revista para cegos tocasse no tema da influência da publicidade no hábito de beber adquirido por menores de idade, afinal, logo nas primeiras páginas da mesma edição, as mais caras para os anunciantes, há um comercial da cerveja Budweiser, de página dupla, estrelado por ninguém menos que o campeão de luta livre Anderson Silva, ídolo das crianças brasileiras por se destacar num pseudo-esporte que simplesmente institucionalizou a briga de rua e fez do espancamento uma virtude.

Anderson Silva é ídolo dos adolescentes pitboys que enchem a cara de vodka com energético e vão para as boates arranjar qualquer pretexto para por em prática os murros e joelhadas que assistem na TV.

De resto, a edição da tal revista reserva sua entrevista da semana para o presidente golpista do Paraguai justificar a deposição de seu antecessor, Fernando Lugo. Ele cita como motivo principal para o impeachment um conflito entre policiais e sem terra em que morreram 17 pessoas. E diz também que o ex-presidente não dialogou com o congresso e com seu partido... Isso é motivo para tirar alguém do poder a toque de caixa? Achei que o cara tinha construído uma cascata daquelas do Collor no quintal de casa...

O repórter da revista aceita tudo que o golpista diz de bom grado e passa boa parte da entrevista tentando arrancar do paraguaio uma declaração contra Dilma Rousseff e Hugo Chávez.

Não consegue, porque o golpista pode ser tudo, menos burro.

5 comentários:

  1. Não me canso de aplaudir a posição do governo reformista e de vanguarda do PT que vem coibindo fortemente a propaganda de substâncias psicotrópicas pelos meios jornalísticos em geral.Aí incluo a lei que baniu a veiculação de propaganda de bebidas alcoólicas.
    Devemos também exportar para o Paraguai o modelo democrático cubano e chavista, que impulsiona o respeito aos direitos humanos e individuais, além de propiciar uma acelerado desenvolvimento econômico.

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  2. Assino embaixo suas lúcidas considerações. Por motivo de segurança, uma vez que a violência já ultrapassou todos os limites do suportável, destaco esta indiscutível argumentação... em que pese o fato de eu não assitir tv, muiiiiiiito menos estes patológicos incentivos à barbárie (lutas):" logo nas primeiras páginas da mesma edição(...) há um comercial da cerveja Budweiser, de página dupla, estrelado por ninguém menos que o campeão de luta livre Anderson Silva, ídolo das crianças brasileiras por se destacar num pseudo-esporte que simplesmente institucionalizou a briga de rua e fez do espancamento uma virtude.

    Anderson Silva é ídolo dos adolescentes pitboys que enchem a cara de vodka com energético e vão para as boates arranjar qualquer pretexto para por em prática os murros e joelhadas que assistem na TV".

    Deplorável, patético e uma prova doentia do mal uso da testosterona afinal, quem faz amor, não faz guerra. Tenho uma amiga psicanalista e "cruel" rsrs, que afirma: "homem que gosta de dar esporrada(prazer), não dá porrada(dor)".
    Abraço
    Marcos Lúcio






    Abraço
    Marcos Lúcio

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  3. Brizola tinha razão ao dizer que a Veja não passa de imprensa marrom !!!
    Ela, como o Globo fazem um desserviços para milhões de brasileiros.
    Penso que deveriam abrir uma funerária, pois adoram ser coveiros de muita gente boa.

    Roberto Civita um dia vai encontrar o outro Roberto (Marinho) lá embaixo !!

    Cury

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  4. Mas, Marcelo, nao existe a propaganda de drogas e o consumo soh aumenta...
    Creio que o exemplo, a informacao, a discussao deva se iniciar em casa, na familia. A crianca aprende e descobre os valores desde pequena, pelos exemplos e informacoes passadas pelos pais.
    Acho que o lar deve ser a primeira escola. O resto, sera a sequencia da vida de cada um. Algo assim como os nossos colegas de faculdade. Depois de alguns anos apos a formatura ficamos sabendo que alguns vao muito bem e outros nao conseguiram nada. Entendeu? O que quero exemplificar eh que a base foi dada e dai, cada qual usa ou nao o que aprendeu.
    Quanto a famosos aceitando participar de certos tipos de propaganda lembro-me da frase "Cada pessoa tem um preco". Esses que participam, sao um exemplo. Afinal, como diria Gerson: "Temos que levar vantagem, certo?"

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  5. Algumas dúvidas que me assaltam a consciencia de vez em quando. Por que ninguém coloca um selo de perigo para a saúde na programação da globo? Se escola é boa e Jesus Cristo é o correto por que ele não frequentou uma? Se o Paraguai foi suspenso do mercosul acabou a nossa produção industrial?

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