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terça-feira, 22 de maio de 2012

Para nossa alegria

O valor de um humorista não se mede pelas pantomimas que faz, pelas cambalhotas que dá ou pelas piadas que conta. Seu valor se mede pelo tempo em que seu humor permanece atual.

Por isso, o maior de todos, o Pelé dos palhaços, foi e continuará sendo Charles Chaplin. Seu imortal Carlitos continua, ainda hoje, em pleno século 21, divertindo todas as faixas etárias de todas as etinias do planeta. Agrada direita e esquerda (mais a esquerda...).

Tirando o genial vagabundo do cinema, todos os outros comediantes têm prazo de validade. A razão é que sua graça em geral se baseia em referenciais entendidos e abstraídos por determinada geração.

Ontem, no Youtube, vi um esquete de Oscarito, que era o máximo para a geração imediatamente anterior à minha. Pois, hoje, seu texto e suas caretas são algo chato e sem graça. Aliás, havia graça, o talento do artista em questão é patente e inegável, mas seu humor não atinge as novas gerações. O tempo de comédia mudou.

Uma amiga viu um filme de Buster Keaton e quase cochilou. Risada nem pensar. E ele era considerado um gênio por seus contemporâneos.

Outros tipos de humor caducaram enquanto nós contávamos mais e mais primaveras. O humor do Balança Mas não Cai, que migrou do rádio para a TV fazendo sucesso até o início da década de 80, graças ao talento de gente como Paulo Gracindo e Brandão Filho, teve vida relativamente longa. Lembro que eu, lá pelos meus 13 anos, ia assistir às gravações de um derivado do Balança nos estúdios da TV Tupi, na Urca, uma emissora já então pré-falimentar. No encerramento, todos os humoristas tinham que desfilar pelo palco como nos musicais americanos. Antes de entrarem em cena, para que abrissem um sorriso para as câmeras, alguém lhes dizia na coxia que o salário atrasado havia saído. Só com esse artifício aqueles comediantes conseguiam rir...

Paralelamente, um pouco mais moderna, surgiu a linhagem de Jô Soares, Renato Corte Real, Agildo Ribeiro. Reinou nas noites da Globo por muitos anos, primeiro com o Faça humor não faça a guerra, depois com o Planeta dos homens e, em seguida, o Viva o Gordo. Mas, assim como aconteceu com a turma do Balança, seus bordões foram perdendo a eficácia. Jô ainda tentou no SBT, mas acabou num talk show.

Chico Anysio resistiu bravamente, do rádio para a TV, onde se manteve ativo e cultuado por décadas, mas o tempo também mostrou-se implacável com ele, que acabou relegado a uma constrangedora geladeira no fim da vida.

Renato Aragão merece elogios, pois continua aí, divertindo a primeira infância com as gags de sempre.

Símbolo de tudo que era novo nos anos 90, a TV Pirata chegou prometendo muito, mas durou pouco. Seus ótimos atores foram diluídos no besteirol. Deixaram como herdeiros o Casseta e Planeta, que também sucumbiu quando os adolescentes que fizeram sua fama cresceram. Voltaram agora ao ar, mas tudo parece já ter sido feito e as piadas se repetem. "Seringueiro passa o dia na floresta tirando leite do pau..." Agora, ainda por cima, colocaram o programa na sexta-feira à noite, quando quem poderia gostar dele está na balada.

Opção para quem não tem opção nas noites de sábado, o Zorra Total renovou seu time mas insiste nas repetitivas apelações e grosserias. Num país sem educação, funciona. Os motoristas de van adoram...

E o que dizer do inacreditável fenômeno Chavez, que para mim sempre foi chatérrimo?

Retrato dos tempos violentos e individualistas, o estilo do Pânico e do CQC é baseado na agressividade, no bullying, na escatologia e no deboche. Agrada principalmente aos adolescentes que não se contentam só em ver o circo pegar fogo, querem caçoar do palhaço correndo com a roupa em chamas.

Do humor trash do Sergio Mallandro e do proscrito João Kléber nem é bom falar...

E tem também o humor sem graça do Rafinha Bastos, que não sabe fazer piada e já foi até processado por isso.

O melhor humor do momento, pra mim, é o que o Marcelo Adnet, a Tata Werneck e a turma da MTV fazem. Um dia também se tornará obsoleto e insípido, mas por enquanto é novidade.

Tornar-se previsível é o fim para qualquer humorista.

Quem sabe resistam como resistiu Zé Trindade, que ainda me faz rir com suas velhas gírias e trejeitos mesmo numa cena de 1959. É que ao ser esquecido, o humor, paradoxalmemte, ganha uma sobrevida.





Sobre humor, leia também:

O Pânico faz bullying

9 comentários:

  1. Como já sou, apesar dos pesares, bem humorado ( benza Deus!) e com uma tendência inata para a crítica e o deboche _sem ofensas_ ,termino divertindo, indiretamente, quem tiver o (des)prazer da minha companhia e sem jamais contar piadinhas infames ou não. Acrescento: sou auto-gozador(sem duplo sentido, please!) ao extremo e levo-me , algumas vezes, às escancaradas gargalhadas. Rio muiiiito de mim, com ou sem expectadores.

    Dizem as boas linguas que sou espirituoso e sarcástico (considero um elogio).Faço rir sem desrespeitar ou apelar para a escrotidão ou perversidade. Sei das fragilidades humanas e respeito-as, profundamente.

    Por outro lado, raros são os artistas que fazem-me rir. A maioria dos comediantes, dentre os poucos que conheço, acho idiota, nerd ou infantilóide. Nem tv assisto, pois tiraria meu bom humor (sei que há raríssimas exceções) e por absoluta falta de tempo e gosto.

    Senti falta da imbatível Dercy Gonçalves que já ganhou ótimo e merecido post seu. No teaztro, ela desopilava , não só meu fígado, como os rins, e o pâncreas, também.

    Gargalho muito com o humor ácido ou corrosivo , sofisticado ou inteligente, da talentosa Ângela Rorô, quando entremeado em seus shows.

    Tenho muita simpatia pelo humor macunaímico e peculiar (ele é o Zé Carioca humano?!) do Zé Trindade e adorei revê-lo nest post. Grata supresa!
    Abraço
    Marcos Lúcio
    Marcos Lúco

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    1. Quando pequeno eu adorava o Zé Trindade, que fazia na TV um personagem chamado Seu Bezerra. O bordão dele era que mulher "é um troço muito bem bolado!".

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  2. Realmente estamos carentes de bons programas de humor, faltou falar da Praça é nossa, quem assiste fica com mais vontade de chorar do que rir !!!
    Gosto do CQC quando eles batem nos políticos.

    Cury

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    1. É, Cury, mas quero ver baterem no Judiciário...

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  3. O humor do grande Charles Chaplin foi e é original, inteligente e emociona.
    Assim como música, que a gente capta a emoção do Cantor mesmo sem entender o que ele ta cantando. Pra mim uma das musicas mais lindas é, F.Comme famme
    O autor,o francês Adamo devia estar muito apaixonado.
    Sergio.

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  4. Joaninha Curiosa

    Adorei o texto!, porém visto que sou apenas (e uns poucos quebrados)"Balzaca" nao acompanhei e conheci muitos dos programas citados; mas lembro-me do Barbosa, personagem da Tv Pirata, e personagem inspirador na vida, pois sim, quando encontro um chato de galocha, visto a minha melhor cara de "Barbosa", enquanto penso: "Babosa..."... Lembro-me do gordinho quanto encaracolado, Jô Soares, do Chico Anysio, e de seu: O salàrio, òòòòòòòò... além, claro, do nosso Didi nacional e seus Trapalhoes! Trapalhoes, um nome quem chama, apela à traquinagem pura, nao é, nao?! Quando criança, me emocionei por ter encontrado o Mussum na rua, que com aquele andar naturalmente carregado de malemolencia, passava na frente da minha escola, na hora da saìda. Lembro-me ainda, que soube através de outros crianças, que o Costinha, era praticamente meu vizinho... e fui eu là pedir autògrafo! Bem, ele sò nao me bateu, porque dava cadeia!Nao achei engraçado, nao... ele, que jà nao era bonito, deixou de ser simpàtico!
    Quanto ao Charles Chaplin: o tempo, te dà razao.

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  5. Lembro-me com saudade do programa da "Impecável Marémansa",que passava da Rádio Globo,lá pelos anos 80,inclusive contando com a participação do Chico Anysio,e até o Zé Trindade fazia algumas pontas. Era um humor leve,inocente e,por isso mesmo,muito agradável.

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    1. Era na Rádio Tupi, eu ouvia toda noite, acredite! Gostava do Burroso

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  6. Verdade,Marcelo,passava na Rádio Tupi,o apresentador era o Antônio Luís,se não me falha a memória. O Zé Trindade fazia um personagem chamado Zé Conquista,que sempre se dava mal,e os camelôs também tiravam muitas risadas.E o Burroso quase sempre encerrava o programa. Sempre que não passava futebol,esse programa era transmitido. Um tipo de humor que não volta mais,infelismente.

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