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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ensaio sobre a cegueira

O primeiro aviso foi quando meu prato saiu do foco. De repente, eu não conseguia enxergar mais a comida direito. E, para comer, tanto quanto a gustação e o olfato, a visão é fundamental. Experimente, no meio do almoço, girar seu prato. As coisas mudam de lugar e lá se vai seu referencial do rango para o espaço. Desorienta, é esquisito.

Notei que não distinguia bem a comida no prato principalmente numa mesa alta em que eu costumava almoçar, perto do trabalho. Êpa! Será?

Sim, o tempo estava passando pra mim.

O segundo aviso foi um colega de trabalho que tem aquela mania de falar com o rosto quase colado ao do interlocutor. Geralmente, os bêbados cometem tal pecado mas, de vez em quando, aparece um cristão sóbrio que tem esse hábito, digamos, de proximidade coloquial.

Bom, mas o fato é que quando esse cara vinha falar comigo, eu simplesmente não conseguia definir seu rosto. E a expressão facial é peça chave numa conversa. Por isso certas coisas não podem ser conversadas por telefone...

Sem ver a cara do sujeito, e tentando vê-lo, eu ficava instintivamente me afastando dele, distância que ele, por hábito, teimava em reduzir, aproximando-se de mim.

Foi triste.

Aí veio o terceiro sinal, que no teatro indica que o espetáculo vai começar. Não conseguir mais ler sem óculos foi a gota d'água. Tive que ir ao oftalmologista, que atestou o início da minha deterioração física. O marco zero do envelhecimento.

O povo chama de "vista cansada", os médicos, de presbiopia, que começa por volta dos 40 anos, quando o cristalino do olho perde a elasticidade e fica difícil ver o que está próximo.

Saí do consultório com óculos para perto. Quando esqueço de levar, é uma desgraça.

Mas, às vezes, é bom não enxergar bem de perto. Isso nos priva, por exemplo, de ler coisas como as que aquela revista semanal que pensa que o leitor é cego publicou. Citando editoriais de seus parceiros de sempre, o jornal biscoito de praia e o jornal do "erramos", a publicação desencavou um suposto complô de petistas envolvidos no tal do mensalão para acabar com a liberdade de imprensa no país. O objetivo da reportagem é apenas escamotear as 200 horas de conversas gravadas entre o seu editor chefe em Brasília e o bicheiro Carlinhos Cachoeira, aquele acusado de ter como empregadinhos o senador do DEM, DEMóstenes Torres, amadíssimo pela revista até ser pego com a boca na botija, e o dono da construtora Delta, o mister Guardanapo na Cabeça.

Cachoeira foi a fonte para várias matérias que a revista publicou nos últimos anos, quase todas elas com o objetivo de atacar os governos do PT.  Como todo o resto da grande imprensa, ela não suportou ver o brasileiro vivendo melhor e o número de miseráveis a diminuir no país.

O texto desta semana pouco faz além de ressaltar a importância da liberdade de imprensa (ou de empresa?) e relembrar denúncias feitas pelos jornais e revistas.

Mas, poucas páginas adiante, a mesma revista, na mesma edição, critica a liberdade dos sites e blogs na internet. Diz que todos são feitos por vadios membros de uma rede de intrigas alimentada pelo presidente do PT.

Trocando em miúdos: liberdade de expressão irrestrita e inimputável só para a grande imprensa, para que o pensamento único continue a ser massificado e correntes políticas comprometidas com a concentração de renda sigam privilegiadas nos noticiários.

Para a internet libertária e popular, mordaça.

Graças a Deus, perdi meus óculos...

Foto: Marcelo Migliaccio

14 comentários:

  1. Ah, se todos observassem como vc observa. Se todos fossem iguais a você. Que maravilha ser brasileiro. Ainda bem que além de você temos Nassif, Mino Carta, PHA, Carta Maior e tantos outros que, tenho certeza, não deixarão que essa revista nos roube a esperança.

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  2. Também passei pela fase da vista perfeita,hoje preciso de óculos. Ha mais ou menos 3 anos um funcionário do jornal globo ligou varias vezes pra minha casa querendo me vender uma assinatura,parecia estar desesperado.
    Pra que jornal impresso, é só ligar o computador e ler as noticias.
    Sérgio.

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  3. caro marcelo,

    quando bati o olho nesta crônica gelei.explico,é que ontem mesmo descobri que está vindo uma catarata precoce,e o problema é que enxergo apenas de uma vista por causa de um acidente,mas ,tudo bem,sou otimista e o nosso tricolor foi campeão.roberto lima

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    1. Vai dar tudo certo, Roberto, e salve o tricolor!

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  4. Eu era moleque novo quando comecei a "apertar os olhos" para ver melhor algo distante. Nao deu outra: oculos antes dos 30 para poder reconhecer, a distancia, o que se aproximava de mim. Teve o seu lado positivo: deu um certo charme e, mais importante, a partir do oculos foi possivel evitar chatos que vinham ao meu encontro. De perto, sempre vi muito bem, incluindo as letrinhas pequenas em contratos (essas que ninguem le - ou que nao consegue ler - e que te ferra depois...)
    Como sempre tive uma boa visao a curta distancia, sempre que lia algo em um jornal/revista, conseguia ler as entrelinhas tambem.
    Como ja comentei aqui, lia jornais e revistas de diferentes linhas o que ajudava na formacao de uma posicao. Lia o JB, Globo, Opiniao, Pasquim, Veja, Isso E, Movimento, etc. Cheguei ao extremo de folhear O Cruzeiro e Manchete em consultorio dentario...
    Como tambem ja comentei aqui, nao concordo com a interferencia do governo (e nao me refiro ao atual governo mas a esse e aos que virao) na imprensa pois isso poderia trazer consequencias temerosas. Sou a favor, sim, de que o governo promova encontros para forcar a midia a constituir uma norma de conduta, com limitacoes e punicoes, algo como o CONAR em relacao a propaganda mas permitindo que, num editorial, qualquer meio de comunicacao expresse a sua opiniao; tome partido de algo (sem que isso interfira na publicacao de materias/noticias) pois, convenhamos, somos livres para opinar.
    Se um governo consegue enviar um PL ao Congresso e consegue a sua aprovacao isso passara a ser Lei e podera ser usado (por qualquer linha de governo que vira) como forma de pressao/censura. Se hoje temos o PT, o que vira depois? E esse eh o meu maior temor em relacao a qualquer tentativa de governo tentando intervir na midia pois "intervir" pode chegar a "controlar".
    Creio que um governo tem a obrigacao de estabelecer uma norma para si mesmo, em relacao a divulgacao da sua propaganda, diluindo essa entre o maior numero de meios de comunicacao, evitando o favorecimento a alguns em detrimento a outros. O poder economico eh forte!
    Ja a nossa Internet eh muito mais publica do que a midia. Nela qualquer individuo pode constituir um blog ou o que seja e divulgar as suas ideias e posicoes e isso tem um nome: liberdade de expressao! Claro que o individuo que passe a escrever na Internet passa a ser responsavel pelo que escreveu e se isso afetar terceiros, temos a nossa morosa justica para reclamar mas, controlar, jamais!!

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  5. E não é que Migliaccio, o do burrico está, novamente, coberto de razão!
    Ora pois.

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  6. Não sei o motivo...toda vez que leio DEM, DEMóstenes e quejandos, penso no coisa ruim, no coiso, no DEMO. Cruzes! Xô!...Pé de pato mangalô "treisveissss".
    Marcos Lúcio

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  7. Consolemo-nos!... Pior do que ler "isto" é ser cego. Sinceramente, nem leio mais. Abs.

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  8. Mauro Pires de Amorim.
    Embora tenha acompanhado o Caso Demóstenes-Cachoeira quando sobra-me tempo disponível para tanto, percebo que querem fazer de Cachoeira o bode-expiatório, o diabo tentador e malicioso dos angelicais e probos políticos, partidos políticos e autoridades envolvidas, principalmente, pelo fato de cachoeira ser mafioso. Não há santos nem probos nesse caso. Só há corrupção porque há corruptor e corrompido, ambos em igualdade de condição criminal, tanto é, que a legislação assim os considera e penaliza igualmente. A diferença entre ambos, reside no fato de que, Demóstenes, por ser Senador, possuí o protecionismo distorcido do entendimento brasileiro do instituto da Imunidade Parlamentar.
    Em países com tradição democrática mais sólida que o nosso e com maior bagagem conceitual do Estado Democrático de Direitos, a Imunidade Parlamentar é entendida como a conferência de autoridade aos exercentes dos poderes políticos eletivos dos Poderes Executivo e Legislativo, para a prática de atos lícitos relacionados com suas atividades mandatárias. Portanto, qualquer ilicitude não será tolerada nem protegida pela Imunidade Parlamentar, seja ela cometida no exercício das atividades mandatárias do poder estatal, muito menos nos aspectos e assuntos de suas vidas privadas, fazendo com que os políticos sejam julgados como qualquer cidadão comum enquadrado na mesma situação jurídica de ilicitude.
    Em tais países de experiência democrática mais sólida e de maior bagagem conceitual do Estado Democrático de Direitos do que o nosso, o Foro Privilegiado, parceiro corporativista e protecionista da Imunidade Parlamentar, segundo a interpretação distorcida brasileira, sequer existe, é admitido ou cogitado de existir.
    Nesses países, autoridade estatal que pensar em burlar a lei, tem que ter os fundilhos muito mais seguros e protegidos do que as nossas autoridades brasileiras, que com suas atitudes chulas, usurpadoras e vilipendiadoras da confiaça pública, passam atestado de autoridades de Estado da Casa da Mãe Joana.
    Felicidades e boas energias.

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    1. Excelente! Voce brindou-nos com as suas palavras.
      Nossos dignos(?) representantes(?) primam por apresentar projetos que beneficiam... os proprios. Chegam ao extremo de copiar coisas que existem mundo afora devido a circunstancias locais. Copiaram, por exemplo, o recesso parlamentar que foi criado devido ao rigor do inverno, se nao me falha a memoria, pelos Ingleses numa epoca que isso tinha sentido e, claro, (pois afinal todos preferem manter as mrdomias) os inventores disso nunca pensaram em acabar com isso visto que hoje nao faz sentido.
      A Imunidade Parlamentar tambem foi assim: uma boa ideia durante um periodo em que era perigoso se expressar e que foi distorcida, deturpada, violentanda, acabando por se transformar num monstro que permite que esses que foram eleitos para representar o povo passem a fazer todos os tipos de mazelas sabendo que estarao protegidos pela "ferramenta" que criaram.
      Crime eh crime e a Lei se aplica a todos. O inicio da nossa Constituicao, se respeitada, daria um termino a abrangencia dessa malfadada "imunidade" que permite que vejamos sentados em suas cadeiras no Congresso, todos os tipos de contraventores, de criminosos: os nossos dignos representantes...

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  9. Grande Marcelo, faça o X com os seus olhos, faça o circulo tambem, para um lado e para o outro, e vá aumentando progressivamente o numero de vezes no decorrer dos dias, pisque os olhos rapido 1o, 2o vezes, tambem progressivamente... Faça disso um habito diario de exercicio ocular e vc vai sentir a diferença. A Eufrasia (erva), eye bright em ingles, tambem ajuda muito a restaurar nossa visão, (não funciona em casos de miopia politica). Aquele abraço e olho vivo... Torelly

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