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quinta-feira, 1 de março de 2012

O bacanal brasileiro

Nos Estados Unidos, onde o dinheiro e a aparência parecem estar acima de tudo, uma menina de 11 anos morreu anteontem após ser atingida por um soco de uma coleguinha na escola. O motivo? As duas disputavam o mesmo namorado.

Nossa!, pensei, a coisa está cada vez pior por lá...

Mas aí eu passei em frente a uma escola pública estadual aqui de Copacabana às sete e dez da manhã e vi que a lavagem cerebral sexista sofrida pelas nossas crianças não é menor do que nos EUA, talvez seja até maior. Boa parte das garotas reunidas na porta do colégio estava com os cabelos impecavelmente feitos e aquelas unhas compridas e vermelhas de rainha de bateria. As pirralhas magricelas faziam caras e bocas para os garotos, também uniformizados e já prontos para aumentar a população brasileira a qualquer momento.

Nada contra a vaidade, mas a precocidade e a obstinação com que nossas crianças entram no mundo adulto é espantosa. Garotinhas de nove anos se portam como mulheres e parecem não ver a hora da primeira transa.

O que leva uma menina de 11 anos pintar os olhos e se emperequetar tanto às seis da manhã para ir a escola? Respondo: o fato de ela só pensar em sexo. Vai à escola apenas para aprender a ser mulher-objeto.

Certa vez, numa entrevista, depois de ouvir por três horas o blá-blá-blá acadêmico da secretária municipal de educação do Rio, perguntei-lhe como ela poderia atuar junto às crianças menores para evitar a gravidez adolescente. A resposta dela foi tão vaga que abortou-me todas as esperanças.

Sem dúvida, o apelo sexual reina na mídia, principalmente na TV, onde qualquer hora é hora para exibir cenas dignas de um canal privê de motel. Aliás, na TV brasileira, a meta é exibir qualquer coisa que impeça o telespectador de acinonar o controle remoto. Pode ser porrada, maledicência, intriga política, sensacionalismo policial, briga de família, humilhação travestida de pegadinha... e isso vai formando o inconsciente coletivo da massa. E a maioria dos pais, educados na mesma cartilha, acha tudo muito natural. Tão natural quanto para esses mesmos pais é dar refrigerante a uma criança de cinco anos às oito da manhã. E viva a ignorância (e a obesidade mórbida)...

Eu não posso fazer sexo na rua com a minha namorada, é atentado ao pudor. Mas sexo na TV a qualquer hora do dia pode. Agredir alguém caído e sem direito de defesa, além de moralmente condenável, também é crime. Entretanto, se for num ringue de vale-tudo, pode ser atração nacional. Caluniar uma pessoa, famosa ou não, também é contra a lei. Num programa de fofocas vespertino ou num site de celebridades, porém, é entretenimento. Na nova propaganda do automóvel Peugeot, o tenista Guga dirige perigosamente em alta velocidade na cidade, quase atropela dois operários, e o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária não fala nada.

Laissez faire laissez passer le monde va de lui même (deixa fazer, deixa passar que o mundo vai por si mesmo, dizem os liberais há séculos). Vai pra onde?, pergunta-se.

Pro brejo.

Qualquer iniciativa do governo (democraticamente eleito pela sociedade) de colocar um limite nesse festival de deseducação eletrônica é combatida ferrenhamente pelos autointitulados defensores da liberdade de expressão. Outro dia, vi o presidente de uma empresa de TV por assinatura criticando a iniciativa da Ancine de controlar os horários e o conteúdo exibido pelas emissoras. Os cães de guarda desse empresariado apátrida tratam todos que se revoltam com essa lavagem cerebral odiosa como se fossem pastores retrógrados querendo tolher os direitos individuais.

Adequar a grade de cada canal a cabo estrangeiro ao fuso horário local vai sair caro para as operadoras de TV por assinatura. Então, que crianças de quatro anos continuem assistindo a agressões e sacanagem já nas primeiras horas da manhã.

Muitos argumentam que a arma do telespectador para se defender é o controle remoto. Concordo, mas não se deixa uma arma na mão de uma criança, não é mesmo?

Aqui, como nos EUA, querem liberdade total. Dane-se a cabeça das gerações que estão formando. Quanto mais imbecilizadas melhor, quanto mais cedo meninos e meninas começarem a gerar novos futuros imbecis melhor. O número de estupros e de pedófilos cresce geometricamente, mas quem se importa? E, como provou a terceira lei de Newton, a reação a toda essa ação é a onda fundamentalista evangélica que se espalha pelo país. Fizeram tanta confusão na cabeça do Hommer Simpson que o cérebro dele virou Mandiopã*.

O que manda é o lucro, o balanço das contas no fim do mês tem que ser positivo. É isso que chamam de livre iniciativa. Caíram de pau no presidente do Equador porque ele deu a jornalistas mentirosos o que eles mereciam: uma condenação judicial. Fazem do venezuelano Hugo Chávez um demônio nos noticiários, mas ele está disputando, nas urnas, sua terceira reeleição.

Acho engraçado esses democratas de almanaque. Querem fazer a população crer que, na nossa bela democracia, o povo manda, porque escolhe o presidente em eleição direta. Só que a partir do momento em que um presidente vai contra os interesses econômicos, ele já não representa mais os que o elegeram e passa a ser um déspota a ser deposto. Muito, muito coerente...

Não somos uma Nação, somos um mercado consumidor, como nosso modelo maior, os Estados Unidos, onde, por sinal, esta semana, mais um garoto entrou no colégio e matou a tiros três coleguinhas...

Casal em Copacabana, Rio. Foto de Marcelo Migliaccio




PS:





18 comentários:

  1. Para mim foi muito bom ler o comentário de um homem mais jovem que eu, mas cuja atitude se pauta pela ética. A maioria das pessoas que eu ouço, tem medo de tomar uma atitude contrária ao desmandos e à falta de pudor que estão presentes em nossas sociedades.
    Encontro senhoras da minha idade que, meio sem jeito,pretendem justificar tudo isso em nome da... democracia, da liberdade de expressão, da juventude. Eu então me pergunto se na porta do Colégio Pedro II podíamos fazer e dizer o que se diz e faz atualmente. Mas por Deus, como essas pessoas entendem democracia. Um jogo sujo do salve-se quem puder?

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  2. Uma análise clara e precisa do que verificamos todos os dias , intimamente incomodados e muitas vezes fragilizados perante tantas atitudes insensatas que observamos no coletivo...a força da familia realmente tem que ser "poderosa" e onipotente para contrariar este sistema que deturpa tudo aquilo que desejamos para o nossos filhos.
    Adorei a sua colocação e tema.
    Abs
    Débora Sena

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  3. Pois é, as crianças estão perdendo a infância muito rápido, e a Xuxa deveria fazer mea culpa, pois ela, com toda mídia que tinha seus programas, influenciou negativamente muitas gerações de crianças.
    Cury

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  4. Irretocável seu brilhante post e destaco:"Muitos argumentam que a arma do telespectador para se defender é o controle remoto. Concordo, mas não se deixa uma arma na mão de uma criança, não é mesmo"?.Bingo! Só corrigiria o deslize no título, para A BACANAL BRASILEIRA, embora seja corriqueiro o uso no masculino (suruba, que é mais popular, ninguém masculiniza kkkk).

    Fico preocupado com a falta de certezas e limites que as crianças e os adolescentes enfrentam. Mesmo com uma educação adequada , a competição e toda a boa e má informação, em excesso, que os cerca, torna-se algo a ser questionado. Preocupa, de fato, a falta de limite próprio e dos outros e a cultura cada vez mais vincada de que ser correto, honesto, bom, é ser trouxa. Tendo como modelo a doentia cultura americana do norte, calcada em winners e loosers ou no perverso e irreal we can...todos têm de ser os primeiros, ninguém pode ser reprovado, ninguém pode ir para uma recuperação. Ninguém pode ser privado de ter alguma coisa que, na maioria das vezes, é mesmo supérflua. Não se deve nem machucar o joelho, quebrar um braço, sentir na pele, no tempo e na medida certa, quais os limites do corpo. E quem não aprende cedo esses limites, vai busca-los mais tarde, através do sexo prematuro, ou do álcool, ou das drogas, ou, pior, tudo junto. A capacidade dos jovens e crianças de hoje em suportar uma frustração é diminuta, quase inexistente, afinal, são os filhos do SIM , com seus egos e vaidades exacerbados.

    Só que ninguém lhes explica que, mais tarde, não escapamos delas... e que também SÓ crescemos com elas. Espero, sinceramente, que os pais acordem, antes que seja tarde, para o mundo inconcebível que estão criando através dessas crianças. Nem que seja para pensar egoísticamente, que mais tarde, quando forem bem idosos, talvez os filhos não lhes dêem a mínima, porque não aprenderam a ter responsabilidades, não sabem o que é cooperação, altruísmo e amor ao próximo. Vivem, praticamente, num deserto de emoções. A ausência dos pais , inclusive pela falta de bons exemplos, e a maldita babá eletrônica erotizando precocemente este público infanto-juvenil, aumenta substancialmente a reprodução irresponsável, com o assustador número de mães meninas (que trocam as bonecas por bebês). Se crianças programadas e desejadas podem ser problema, imagine aquelas resultantes da inconsequência ou do sexo casual.
    Lamentavelmente os jovems não estão (quase sempre) preparados para ir em busca da felicidade. Os pais, quase sempre despreparados e imaturos também, deram tudo para que eles fossem felizes, mas tudo o que de material existe e fizeram tudo para eles, como se diz...deram muito mole. E entregaram-lhes pronto, fácil, sem lhes cobrar nada por isso. Assim,, tiraram-lhes o prazer de se tornarem autônomos, construtores e descobridores de seu próprio projeto de vida. Foram, durante todo o seu desenvolvimento, protegidos de toda e qualquer frustração.Alguns, infelizmente, serão os monstrinhos da mamãe (cometerão atos de vandalismo , violência, etc.). Essa falta de privação ou frustração, evidentemente, não é boa para o desenvolvimento ético-emocional de um sujeito.
    Abraço
    Marcos Lúcio

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  5. Mauro Pires de Amorim.
    Marcelo, tudo isso que você fala, com alguns exemplos específicos diferenciados e demonstrativos acerca da consideração do conceito ético ou do caráter e consciência dominantes na sociedade norte-americana e que, conjunturalmente, influem na nossa e demonstram a superposição dos valores consumistas e patrimonialistas relacionados à ostentação, posse e propriedade de bens materiais, pode ser muito bem vista e entendida nos documentários do cineasta Michael Moore, notadamente, no entitulado, "Capitalismo: uma história de amor" e em outro, "Saúde".
    Nesse último, Moore faz comparações entre o caráter e conceito de saúde nos EUA e na França. Fica evidente, a diferença abissal entre os 2 países, inclusive, o papel, entendimento estatal, importância conceitual e de caráter dos sistemas adjacentes à visão simplista da questão unicamente sob o ponto de vista de remédios, hospitais e médicos. Ele aborda demonstrando que na França, isso passa pela questão da qualidade de vida dos cidadãos, correlacionando, relações trabalhisatas, educação, previdência social e claro, atendimento médico-hospitalar ou ambulatorial.
    Felicidades e boas energias.

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  6. Muito embora eu não tenha participado de nenhuma bacanal (não por questões morais), conheço esta palavra somente no feminino, como bem salientou o sempre pontual e excelente comentarista M. Lúcio , que já mereceu, não por acaso, destaque no ótimo blogue ALMA LAVADA, da Fernanda Dannemann. Tenho o seu , assim como o dela, como os mais interessantes e melhores que conheço, até agora.

    O problema de termos como "modelo" a violenta, infantilizada, alienada, preconceituosa, prepotente, ocompetitiva e ultra consumista "cultura" americana, não deixa dúvidas quanto aos seus efeitos nefastos aqui, no Brasilzão...tão bem digitados, como sempre, por você e tantos comentaristas mais lúcidos, ou menos fantasiosos, digamos assim.

    Acrescento e ratifico que a causa maior da deriva em que os jovens se encontram reside, fatalmente, na falta de educação e exemplos dos próprios pais, tão perdidos e infantilizados quanto eles. Como os pais não amadureceram e parece quererem ser filhos para sempre...mais perdidos, ainda, ficam os pobres jovens, pela falta de modelo óbvia. Os pais não dando qualquer significado mais sensato, não sendo bons narradores da existência (por falta de maturidade e até de cultura), acabam não dando certezas nem caminhos para seus filhos. Se a mãe quer ser como a filha (nas atitudes, roupas e comportamento, pasmem!)...pergunto: qual o futuro desta filha? Serão , destarte, uns retardados afetivos, que associam, equivocadamente, afeto com felicidade e significado da vida com vida como balada (até com aditivos, tais como êxtase e outras excrecências).. Há sempre, ainda bem, honrosas exceções. Não significa, porém, que não se deve manter um espírito mais jovem, mais antenado, mais curioso...mas isto é outra e melhor história.

    Sinceramente, do jeito que a coisa vai, me pergunto: vai para onde? Quem vai dar conta disto?!, desta coisa largada, solta e, repetindo, à deriva. Como tudo e "todos" viraram mercadoria, prevalece a mesma ilogicidade do mercado livre e sua evidente crise.
    Boa sorte, adoooooooorei o post e abraços
    Verônica

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  7. Texto enxuto e realista. Está em um dos melhores que li hj. Há dois anos que o acompanho ininterruptamente e concordo com a maior parte de suas idéias expostas.
    Fico feliz em saber que todos os anos em que vc trabalhou
    pra quase todos grandes jornais do país, não corromperam sua alma. Continue assim. Sempre.

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  8. Como sou eu que crio minha filha de 7 anos. (eu me sinto um privilegiado por isso, e essa coisa de que só a mulher tem a guarda dos filhos esta caindo por terra).Recentemente obtive
    a guarda de minha filhota. E quanto ao conteúdo do texto temos que evitar ao máximo que nossos filhos vejam BBB NOVELAS E NOTICIÁRIOS. Eu quando criança na idade de minha filha não tinha televisão na casa em que morava-mos. Eu Dormia 8 horas da noite e acordava cedinho. O que é muito saudável para a mente infantil.

    Sergio.

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  9. Certas coisas q acontecem na Historia da Humanidade são incriveis, aí eu vou direto ao ponto. Vc já leu o "Minha luta", sabe de quem, né? Abraço, e faço uma ressalva... Ninguem é dono da verdade, pois ela pertence a todos q a procurem

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    1. Não entendi, sr ou sra. Anônimo, poderia ser mais objetivo?

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    2. As melhores respostas são aquelas q nós mesmos encontramos. Se dê ao trabalho de le-lo, até pq o conhecimento nunca é demais...

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  10. Alô "anônimo", por acaso você conhece esse ditado:
    Quem não deve, não teme.
    Porque você não se identifica ???
    Cury

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    1. Ops voltei. Conheço o ditado, só nao sei ao q vc se refere... "Cury"? Se vc prefere as unanimidades, nao se preocupe com o conhecimento, afinal, ele pode te fazer "dever", e pra certas pessoas isso é coisa a se "temer"... Torelly

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  11. Acho pertinente sobre o lixo que é a progamação da nossa tv aberta, mas gostaria de entender se existe algum sistema melhor do que a democracia?
    A história me prova que não, haja visto o atraso que se encontra países como Corea do Norte e Rússia , que antes da guerra fria era a maior potência (União Soviética)ou uma das maiores do mundo.
    Com certeza a nossa democracia e tantas outras é por demais injusta ,mas existe algo melhor?
    Talvez a socia democracia dos países nordicos , mas a população lá é bem menor , gostaria de ver funcionando em países gigantes como o nosso.

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    1. Normatizar o conteúdo da TV, que influencia diretamente milhões de crianças, muitas delas sem qualquer orientação familiar, não significa instaurar uma ditadura. Abraço.

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  12. Entendi, mas de qualquer forma qual o sistema que o você acredita mais? Abraço!

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    1. Acho que a democracia é o menos pior e o desafio é manter as liberdades mas salvaguardar a sociedade dos abusos do poder econômico.

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  13. Falta música católica para o povo, e toda uma população de castrados...

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