Translate

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O 'Pânico' faz bullying

_ É só uma brincadeira _ disse cinicamente o tal do Impostor (Daniel Zukerman) a um transtornado Zeca Camargo.

Era mais uma dose dominical de bullying em rede nacional promovida pela turma do programa Pânico na TV, da Rede TV!.

Brincadeira coisa nenhuma! Há uma campanha do governo para reduzir o bullying nas escolas brasileiras, mas na televisão isso é aceito e, pior, tido como algo muito engraçado. Com programas assim, como esperar que os cidadãos de amanhã saibam que seu direito termina onde começa o do outro?

Trata-se de um dos maiores desrespeitos institucionalizados e tolerados de que se tem notícia. Que direito esse pessoal tem de perseguir e atazanar pessoas em locais públicos? O pior é que a maioria dos telespectadores acha engraçado. Engraçado porque não é com eles. Será que o apresentador Emílio Surita, que parece ser o chefe ali, gostaria que fizessem esse tipo de "brincadeira" com seu filho?

Não sou amigo do Zeca Camargo e nem vejo o Fantástico (a não ser quando topo com a competentíssima e linda Sonia Bridi). Só acho que nem ele nem ninguém merece passar por esse tipo de estresse. Isso é crime. Se eu fosse o Zeca chamaria a polícia. E processaria o programa e a emissora, que eu acho que é o que ele vai fazer, porque, no último domingo, com os olhos rútilos de ódio, filmou com seu celular os seus algozes, enquanto eles perturbavam seu juízo como moscas da indústria do entretenimento.

E ai de quem reclamar disso! Não se pode ser contra a mídia. A TV pode tudo. Desde que os militares desmoralizaram completamente a palavra censura, assistimos a um festival de absurdos e crueldades na televisão. É a liberdade de expressão sagrada apregoada pelos barões da mídia, que lutaram enquanto puderam até contra a singela classificação indicativa antes dos programas. Eles querem audiência, lucro, não importa a que custo. Ainda por cima, com suas cabeças colonizadas, esses empresários e executivos dizem que não estão fazendo nada demais, pois quadros semelhantes estão no ar em emissoras de outros países do mundo.

Se não pensam nas mais de 300 mil crianças que assistem ao Pânico todos os domingos só em São Paulo, que pelo menos respeitem o cidadão Zeca Camargo, que paga seus impostos e tem o direito de ir e vir sem ser importunado por um bando de babacas.

Não importa se o próprio Zeca Camargo legitimou o mundo cão televisivo ao apresentar um reality show em que mandava um grupo de retardados comerem baratas e larvras. Isso só depreciou sua carreira, mas não justifica um tratamento como o que estão lhe dando.

É o mesmo que fizeram com o Clodovil, que, coincidência ou não, morreu pouco depois. E também com o Jô Soares. No fundo, todos os alvos das "brincadeiras" de mau gosto e das perguntas ofensivas do Pânico têm vontade de fazer o que o Netinho de Paula e o Vítor Fazano fizeram: meter a mão na cara desses caras que não têm respeito pelos outros.

Mas não podem, porque vivem da mídia e, se partirem para a ignorância, correm até o risco de ficar mal vistos pelos executivos que os empregam. Sem falar que serão acusados de não saber brincar... de não ter senso de humor.

Ninguém com um mínimo de juízo briga com a televisão. Muito menos um artista que tem nela seu maior mercado de trabalho. E, repito, a TV pode tudo. Não vi um só colega do Zeca e do Jô levantar a voz contra isso. Nem o Sindicato dos Artistas, o dos Jornalistas.

Depois reclamam que no Brasil se quer fazer lei para tudo. Mas, se o pai não sabe que não se bate numa criança, o governo tem que ensinar. Se o produtor de TV não sabe que deve respeitar a privacidade e a individualidade das pessoas, o Estado tem que intervir.

Desde que me entendo por gente a mídia ridiculariza as pessoas. No rádio, o Ari Barroso humilhava os calouros, artifício que Chacrinha levou para a TV. O homem do sapato branco colocava parentes para brigar diante das câmeras, tradição que continuou com Ratinho e hoje fica por conta da Cristina Rocha. Sem falar nas pegadinhas e nos reality shows que aviltam a condição humana.

Ninguém respeita ninguém nem nada nesse país desde Pedro Álvarez Cabral. É uma tradição brasileira, é nossa cultura. Danem-se a natureza e o sinal vermelho. Gostamos de levar vantagem em tudo, certo? O político que mete a mão no dinheiro público e o empresário que paga propina não estão nem aí para seus compatriotas, nem para a Nação. Assim como o imbecil que para em fila dupla atrapalhando o trânsito.

A TV só reproduz esse espírito de porco brasileiro. O único momento em que pensamos na pátria é quando a seleção está em campo. Fora disso, é cada um por si e os outros que se danem.

Até gosto de algumas coisas do Pânico. Eduardo Sterblitch, por exemplo, é um dos melhores humoristas que apareceram no Brasil desde Chico Anysio e Ronald Golias. Carioca e Ceará têm imitações ótimas, e o quadro Afogando o Ganso muitas vezes é engraçado, como foi neste último domingo, com um Papai Noel arrebentando a piscina.

Por que o programa não dá de presente aos brasileiros no ano que vem o fim desses quadros de bullying? Pedir que parem de anunciar cerveja seria demais, então, pelo menos, abandonem o bullying. Coloquem-se no lugar de suas vítimas.

Se eu fosse o Zeca Camargo, usaria as imagens do constrangimento público que lhe impuseram para exigir, na Justiça, indenização por danos morais e materiais (afinal, depois de ser insistentemente sacaneado e desmoralizado na frente de milhões de telespectadores, sua imagem ficou abalada profissionalmente).

E não aparece um promotor para mandar parar com isso! Para proibir que membros do Pânico cheguem a menos de 500 metros do Zeca Camargo e do Jô Soares. Será que o nosso Ministério Público só sabe apontar o dedo para traficantes da favela?

Televisão em botequim de Copacabana. Foto de Marcelo Migliaccio
Vale tudo em nome do entretenimento?

17 comentários:

  1. Audiência não significa qualidade, o Pânico tem audiência, como o Big Brother também tem muita, mas a qualidade está longe desses programas medíocres !!!
    Os artistas não ousam falar mal de algum programa da tv, e a imprensa de uma maneira geral, teme falar mal de algum juiz de direito, que cometeu algum absurdo.
    E olha que diariamente lemos decisões dúbias deses que pensam ser semi-deus.
    Paulinho Cury

    ResponderExcluir
  2. Valeu, Cury. André, obrigado pela correção. Abraços.

    ResponderExcluir
  3. Quando um professor chama a atenção de uma criança ou de um adolescente na escola, pode ser processado por impor constrangimento. Quando um professor pretende ensinar e, para tanto, critica, aponta os erros, oferece soluções, é ridicularizado. A televisão se esmera em apresentar os professores como pessoas meio idiotas, mal vestidas, com roupas e penteados ultrapassados. Isso passa a mensagem da inutilidade do estudo, da inutilidade da educação e do respeito pelo outro. A linha que estabelece a diferença entre o certo e o errado está sempre recebendo as mais variadas nuances, porque a mentalidade atual, que vem sendo construída há décadas, quer apagar, de fato, essa diferença. Fica assim mais fácil dominar e anular as vozes. E o pior é que estão conseguindo.

    ResponderExcluir
  4. Nunca achei muita graça no Pânico e hoje menos ainda,justamente pelo fato de ter se desaprendido a fazer humor. Antigamente,sabia-se ser politicamente incorreto sem ser ofensivo. Nos Trapalhões,por exemplo,o Didi chamava o Mussum de "crioulo cachaceiro"e o Mussum devolvia chamando o Didi de "cabeça-chata". Por sua vez,o Didi insinuava que o Dedé "não era chegado",e por aí vai,e ninguém ficava ofendido com isso. Hoje,o que se vê é pura apelação na falta de talento. Nada mais do que mais uma ferramenta de imbecilização do povo. Até se entende um pouco por que os militares tanto reprimiram a imprensa. Liberou geral,deu no que deu...
    Em tempo: A Sônia Bridi é realmente linda. Típica mulher que não precisa mostrar a bunda pra mostrar que é bonita.

    ResponderExcluir
  5. Quando digo que não vejo mais a TV aberta, muita gente me olha como se eu fosse marciana ou maluca. Quando fiz matérias para a Folha de S. Paulo, criticando a arpesentadora Marcia Goldsmith, que levava ao ar pérolas como "a mulher que matou o marido, fez um picadinho dele e chamou a sogra para almoçar", fui criticada por ela ao vivo na TV. E quando defendi o sr. Ronnie Von, ridicularizado no mesmo programa, ele próprio tentou tomar as dores da apresentadora e de sua produção, depois de me contar que quase tinha tido um ataque cardíaco no palco. TV aberta é lixo e horror. E o pior é que os canais a cabo estão indo pelo mesmo caminho. Já deu uma olhada na programação do Discovery?

    ResponderExcluir
  6. Marcelo, esse corredor da foto acima é você ??? rsrs
    Paulinho Cury

    ResponderExcluir
  7. Não, Cury, se eu tiver que correr tanto assim, pego um táxi.

    ResponderExcluir
  8. Lendo este post, concluí, uma vez mais, que não sou este tipo (quase unânime) de brasileiro _ não obstante amar o Brasil verdadeiramente artístico e de exuberante natureza_ pois não assisto tv e lembro, ainda, à Fernanda Dannemann, que ela não está sozinha nesta sábia ou oportuna empreitada...tenho mais alguns raríssimos e bons exemplos de nobres habitantes de outras galáxias kkkk, graças a Deus!. Além disto, ignoro ou não me reconheço no futebol, inclusive em copa do mundo_com todo o respeito aos jogadores e seus apreciadores, claro! Considero estas idiossincrasias como sorte minha, respeitando as milhares de opiniões divergentes dos outros filhos de Deus, pois se gostasse, teria de não dormir, no mínimo, pois não tenho tempo sobrando, muito pelo contrário. Solicito ao jornalista talentoso e combatente que avise,se e quando, a televisão evoluir e passar a ter respeito pela dignidade e/ou inteligência humanas (já sou idiota o suficiente e busco compensar esta lacuna com atividades consideradas mais proveitosas, formativas, informativas e enriquecedoras de espírito... para tentar disfarçar, pelo menos, o espírito de porco_do mato?!_ tão comum nesta grande Tupinicópolis, ou neste exótico _e muitas vezes bizarro_Patropi.Acontecendo o quase impossível...hum... milagre, tomarei coragem e, quiçá, eu dê uma espiadinha básica e sem compromisso??? Por enquanto dispenso até o controle remoto , pois a tosca "rainha do lar" _ de acordo com seu relato_ que possuo somente para as raras visitas de parentes mais? idosos, continua presa e trancada no seu móvel ou jaula, que, encomendei, em priscas eras, e sob medida, a um competente marceneiro (ainda existe esta profissão?!).
    Abraço.

    ResponderExcluir
  9. Este programa é HORROROSO !!!! Infelizmente,meu filho adolescente não perde um !
    Por mim ,sairia do ar ,mas como não posso ser egoísta e devo respeitar aqueles que gostam,torço pela punição à falta de respeito.
    Infelizmente o que dá audiência é o mau gosto e este processo é irreversível,pois o que interessa é o LUCRO.

    ResponderExcluir
  10. Marcos Lúcio, chame esses seus amigos e vamos tomar um chopp lá em Marte!!!

    ResponderExcluir
  11. Sem querer defender esse lixo desse pânico, acho pelo menos curioso ver a globo provando um pouquinho do próprio veneno. A globo sim é que constantemente usa da intimidação e até mesmo chacota (bullyng, se preferirem) ao prejulgar, precondenar e destruir reputações, tudo travestido de "jornalismo". Quem já não testemunhou ou ficou sabendo de episódios desagradáveis com jornalistas da emissora, arrogantes e invasivos? E ai de quem discordar dessa verdadeira santíssima inquisição contemporânea.

    ResponderExcluir
  12. Sabem por que existe ladrão? Porque sempre tem alguém que compra o que ele rouba. Sabem por que existe traficante? Porque sempre tem algum viciado para comprar a droga que ele vende. Sabem por que um programa lixo como o Pânico continua existindo? Pois é, nem preciso dizer, né?

    ResponderExcluir
  13. Marcelo, aprecio muito sua opinião e gostaria de poder ler um pouco, se possível, claro, sobre ela quando com relação às cotas raciais( o sistema atual, com comprovação de baixa renda) na admissão das universidades já que venho discutindo bastante o assunto pois estive prestando provas de vestibular ao longo do ano. Minha posição atual é a favor( não gozo do direito à cota, só para constar) mas gostaria de ler mais sobre, antes de me posicionar com firmeza. Abraço, Artur

    ResponderExcluir
  14. Convite aceitadíssimo, "bien sûr"!, Fernanda Carolina! Chamarei os raros e especiais amigos indiferentes/críticos à rainha do lar (malditv) e aproveito para parafrasear o Moisés Santana:
    " Vamos sim, viajar pro espaço sideral, bronzear ao sol, tomar banho de lua ... em cada esquina muitas estrelas...mas se Marte não nos receber para um(ns) chopp(s), e se Saturno não nos animar, sugiro, então, VAMOS PRA MERCÚRIO...que, certamente, tem um clima..." Ato contínuo, naquela infinita vastidão, não saberemos"quem está em cima, quem está embaixo, porém, descobriremos, maravilhados de tanta luz!!!, aonde a gente se encaixa no espaço sideral". Que tal??? Convido também o combatente blogueiro, se ele quiser e puder, e teremos, todos e todas...UM NATAL SIDERAL, e um Novo Ano idem...se depender dos meus sinceros desejos.
    Abraço forte em ambos + santé e axé!

    ResponderExcluir
  15. Olá, Artur, também sou a favor das cotas e explico no texto postado em
    http://www.jblog.com.br/rioacima.php?itemid=21418. Abração

    ResponderExcluir
  16. Um clássico exemplo de como a TV pode ser nociva, acabei de assistir a uma propaganda da árvore do Bradesco na Lagoa. além de dizerem que é um presente para os cariocas (presente ???) a propaganda quer sacralizar a tal árvore.
    Presente mesmo foi o que o Governador Sérgio Cabral deu para o Bradesco, a folha de pagamento de todos os funcionários do Estado.
    Paulinho Cury

    ResponderExcluir
  17. Eu já comentei isso alguma vez, deveriam perseguir os familiares dos membros da equipe do panico na tv, bando de ignorante que fazem tudo por dinheiro, basta ver as prostitutas que eles gerenciam.

    ResponderExcluir