Translate

domingo, 27 de novembro de 2011

Tão diferentes e tão previsíveis

Com a discrição que o ato exige, andei reparando nos pratos que as pessoas fazem nos restaurantes self-service. As combinações são as mais diferentes, prova inegável da diversidade humana.

Tem aqueles que, aproveitando a profusão de opções, fazem as misturas mais esdrúxulas. É macarrão com sushi, bife com bobó de camarão. Estranhos paladares... de perto ninguém é normal...

E há os que se esmeram em fazer um prato saudável, com muitas folhas, legumes... mas, já no final do mesão, têm uma recaída e, pronto, lá vai uma costeleta de porco para o meio da selva natureba.

Mas os mais junkies, geralmente, são crianças. Pegam uns nuggets, uma coxinha de galinha, um croquete e batatas fritas. Isso quando não podem almoçar no Mc Donalds e jantar no Bob's. Seus pais quase sempre permitem essa dieta doentia e ainda pedem um refrigerante para ajudar a gororoba a descer até aquelas pequenas panças em expansão.

A mulherada, de olho na boa forma, faz o possível para não sofrer na balança. Muita salada, uma proçãozinha disso, outra daquilo. Não sei como aguentam tanto desprazer na refeição. Já viu coisa mais melancólica que um almoço num restaurante natural?

No entanto, se são tão diferentes à mesa, as pessoas são muito parecidas em suas reações. Como são previsíveis. O cabresto cultural é forte, preso com correntes nas tradições que mudam numa velocidade de lesma indolente. As amarras sociais, religiosas aprisionam numa cartilha de comportamento mais fina e superficial que um manual de autoescola.

O que é o conto do vigário, senão um ardil ensaiado com base na previbilidade do ser humano? Por isso, a maioria das pessoas cai, ou não seria um negócio tão lucrativo que valesse o risco de seis anos na cadeia. O vigarista segue um roteiro pois sabe mais ou menos como sua vítima vai reagir a cada estímulo.


Os religiosos também se valem dos medos que o homem tem desde que Adão foi erigido de uma cadeia de aminoácidos que boiava num oceano em convulsão. E quem não gosta de uma explicação fácil para tudo?

A propaganda, o discurso político, o jornalismo, o direito e até a medicina estão apoiados no que esperamos do que se convencionou chamar de um cidadão respeitável, cumpridor dos seus deveres. É em cima dos medos e inseguranças desse cara que as grandes corporações, congregações e partidos realizam seus lucros.


Ser diferente é um pecado. Pode ser um pecado mortal se você der o azar de cruzar com os pitbulls do sistema, os fascistas, os neonazistas, que, reacionários que são, nada mais fazem do que conservar o status quo na base da porrada. O interessante é que eles, embora condenados pela mídia da boca para fora, zelam para que ninguém ande fora da linha, exatamente como querem os donos do poder. Muito do que os religiosos pregam com a Bíblia na mão, os skinheads e afins aplicam com um soco inglês entre os dedos. É branco com branco, homem com mulher, negros na senzala, nordestinos no Nordeste e gays bem trancados no armário.

Drogas, nem pensar, pois a alteração de consciência é um grande passo para se mudar de opinião.

E nós, com nossos paladares tão diferentes, somos obrigados a nos esforçar para caber no curral onde fomos colocados. Se ficarmos quietinhos e comportados, essa gigantesca máquina trabalha sem maiores sobressaltos.

Àqueles que não querem virar salsicha na canhestra engrenagem planetária, no entanto, basta serem autênticos, honestos consigo mesmos e atentos à sua intuição. Danem-se as convenções.

8 comentários:

  1. Pois é, meu caro MM...o povo ainda??? não entendeu que a vida constitui-se somente de diferenças e diversidades, a ponto de um grão de areia não ser exatamente igual a outro. A uniformização ou automoatização e, até a infantilização da sociedade _ e o nefasto ou perverso neoliberalismo é uma destas evidências_ é fundamental para o controle desta "vida de gado, desta multidão boiada caminhando a esmo". As pessoas raramente percebem que o Criador não repete figurinha no álbum da vida, muito menos oferece segurança total , posto que a impermanência é o "leitmotiv" da existência.

    Destaco esta sua sacada ou verdadeiro golpe de mestre: "Muito do que os religiosos pregam com a Bíblia na mão, os skinheads e afins aplicam com um soco inglês entre os dedos" e acrescento: ela usou de igual ou pior violência, por exemplo, e para ficar somente em um: na Santa Inquisição.A ordem do Caetano: "vaca profana, põe tem cornos, pra fora e acima da boiada", coaduna ou se afina com o brilhante fechamento do seu ótimo post.
    Saúde e sorte!!!

    ResponderExcluir
  2. Marcelo,quando almoço num restaurante natural,eu me sinto leve,e com uma sensação gostosa de bem está.
    Experimente,e vc vai ver que essa história de "melancólica" é cisma sua,termina vc gostando. Boa noite.

    Monica.

    ResponderExcluir
  3. Mauro Pires de Amorim.
    Seu texto troxe-me à memória um filme brasileiro do final da década de 1970, início da década de 1980, que segundo recordo-me chamava-se "A Incrível História do Homem que Virou Suco", ou simplesmente "O Homem que Virou Suco".
    Enfim, não recordo-me exatamente o título da obra, mas dizia exatamente o que você diz. Caso as pessoas não se adaptam ou se adequam ao sistema, o sistema trata de esmaga-las, tal qual frutas que viram sucos e que são rapidamente consumidas na mesma velocidade em que são esquecidas e substituídas. Numa voracidade bestial e insaciável.
    Felicidades e boas energias.

    ResponderExcluir
  4. Desculpe, faltou a identificação no primeiro comentário: Marcos Lúcio.

    ResponderExcluir
  5. "Não, não é louco.
    O espírito somente é que quebrou-lhe o elo da matéria,
    pensa melhor que vós, pensa mais livre.
    Aproxima-se mais da essência etérea".

    Junqueira Freire escreveu o poema que contém o trecho acima há dezenas e dezenas de anos atrás, mas ainda soa bem. Numa sociedade onde a individualidade já é pouco respeitada quanto menos ainda a liberdade de ser quem ou o que quiser, os "loucos" são os que transgridem a máquina, citada genialmente por Chaplin em "Tempos modernos".

    Pare de fumar, pare de beber, pare de comer isso - coma aquilo -, trabalhe mais, divirta-se menos e poupe mais, não deixe seus filhos rolarem na grama ou pisarem na lama (podem pegar uma infecção mortal e disseminar uma pandemia!) muito menos deite mais que 1/3 da taça de vinho... Meus filhos pisam na lama porque eu ensinei e é gostoso pra caramba sentir a lama do campinho de futebol entre os dedos... Alguém aqui ainda lembra como é?

    Noutro dia li uma triste notícia de um empresário que morreu atropelado por um ônibus a caminho do trabalho, cujo percurso era sempre feito de bicicleta - saudável que era, aos 60 e tantos anos não bebia, não fumava, não comia gordura, ia para o trabalho de bicicleta... Veio um busão e pronto: acabou com a saudável expectativa do pobre coitado de chegar aos 100 anos.

    Respeito e admiro a disciplina de quem leva uma vida assim, não sou radical a ponto de concordar com o Lobão ("melhor viver dez anos a mil que mil anos a dez"), mas também não acho que seja tão sensato viver comendo como um pardal diabético e agindo como um bicho da seda.

    Equilíbrio - essa é a palavra. Salada é bom e eu adoro, frutas são uma dádiva, mas o que dizer de uma bela leitoa assada e pururucada? Desce o torresmo e uma cachaça por favor que eu vou filosofar comendo uma gordurinha...

    Abraço!

    ResponderExcluir
  6. Rsrs não deu pra segurar,dei risadas com a irreverência do Fred...

    Monica.

    ResponderExcluir
  7. O self-service foi só o trampolim para cair de boca em algo bem mais complexo que arrumação do prato nosso de cada dia.

    De que adianta uma dieta saudável se o que se bebe todos os dias é a mesma água barrenta da hipocrisia e do egoísmo?

    O alimento que permite a longevidade não é que servimos na bandeja, afinal qualquer um de nós pode ser surpreendido por um maluco ao volante; uma bala perdida; um pedaço de reboco de um prédio velho; um bueiro; um raio, um botijão de gás.. E ai, ficaremos reduzidos a fria constatação do laudo de necropsia. “bom estado de nutrição, dentes em bom estado de conservação, sem alterações no fígado, pâncreas, rins e bexiga..

    Porque, meu querido, não se faz autópsia nas almas.

    ResponderExcluir