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sábado, 5 de novembro de 2011

A pegadinha divina



Outro dia, assistindo a um desses documentários sobre animais na TV, eu observava a harmonia que há entre os bichos e a natureza. Volta-e-meia, um traça o outro, mas até mesmo os ataques mútuos fazem parte do roteiro de equilíbrio do ecossistema... a tal cadeia alimentar, que começa lá nos grandes felinos e termina na formiga, envolvendo também o reino vegetal. Tudo perfeitinho.

Esse momento Discovery me levou a matutar sobre que razões teriam levado o bicho homem a avacalhar tanto o planeta e de se comportar como um convidado espírito de porco que chegou para bagunçar a festa até pôr um fim nela.

Uns dizem que é porque o homem não é daqui, foi plantado na Terra por ETs, já que, por exemplo, é o único que precisa de roupas para não morrer de frio... é uma teoria...

Mas eu acredito que teremos boas pistas se pensarmos na única diferença entre o ser humano e os demais habitantes deste planeta.

Qual é mesmo?

Nada de físico ou genético, lembre-se que nosso DNA pouco difere do dos macacos.

A única diferença entre nós e eles é que sabemos que temos um prazo de validade, que um dia passaremos desta para a melhor, que vamos visitar o Homem lá de cima, que vamos pro saco, que vamos fazer a passagem, enfim, seja lá como você chame a morte.

Atentar para essa particularidade da espécie humana, a consciência da finitude, traz logo de cara um questionamento sobre as intenções de Deus, se é que Ele existe ou tudo não passa de um mero acaso químico.

O que teria levado Deus a colocar sobre o mundo um único tipo de ser ao qual ele solenemente avisasse:

_ Olha, meu filho, vou lhe dar o dom da vida e o livre arbítrio, mas tem um pequeno detalhe: instalei dentro de você uma bomba relógio e o tempo programado para ela explodir eu não vou te contar. Aaaaah, não reclama, senão o jogo não tem graça. Agora, vai, vai que seu tempo já tá correndo!

Trec, trec, trec. Corda dada, e lá vai o bonequinho desesperado para a vida, sem saber quanto tempo terá. Um mês, um ano, 50, cem?

O primeiro passo é descobrir o que fazer nessa absolutamente incerta existência.

Mas como se programar para uma corrida sem saber se ela será uma prova de 100 metros rasos ou uma maratona de 42 quilômetros? Como dosar o fôlego, calcular o gasto de energia?

Se vira, malandragem, quem não sabe brincar, sai da brincadeira.

A maioria das pessoas sai correndo loucamente atrás de dinheiro, poder, prestígio. A consciência da finitude, que poderia ter se transformado num motivo para ajudássemos uns aos outros, nos tornou mais competitivos e até desleais.

"Não sei se vou estar aqui amanhã" é uma frase muito dita e que diz muito sobre esse bicho atormentado chamado homem.

Pensando assim, muita gente nem liga para o planeta, tão pouco para o que vai sobrar para os seus descendentes. Não consigo exergar um político corrupto, por exemplo, como outra coisa senão um desesperado, uma barata tonta planetária sem carater e sem princípios, um pobre diabo que não entende o sentido da vida.

"Farinha pouca, meu pirão primeiro" é outra máxima que define bem o comportamento da quase totalidade dos seres humanos na Terra.

Dinheiro compra muitas fugas, quase o suficiente para não pensarmos na peça que o criador desse grande circo nos pregou, no nosso timer com programação desconhecida. Grana compra lindos carros, compra casa com piscina, compra sexo, compra olhares de inveja, compra impunidade, compra escravos, compra puxa-sacos, uísque e heroína. Em suma: compra prazeres físicos, químicos e psicológicos.

Talvez por isso as igrejas evangélicas tenham descoberto seu ovo de colombo quando vincularam a fé à prosperidade financeira. De uma só tacada, passaram a vender a proteção divina (como se o criador adiasse a explosão da bomba relógio das ovelhas de comportamento exemplar e prometesse recebê-las com flores em sua morada) e a fortuna, para que esse mesmo rebanho possa viajar no ônibus da vida sentadinho na janela.

Para mim, a vida é risco, é incerteza, é o desconhecido nos desafiando a cada momento. Melhor aceitar as regras do jogo, e não viver como um revoltado a estragar o prazer dos outros e a cuspir no prato que come.

Melhor é não ter medo do fim, não se tornar escravo de um domador, seja ele pastor, psicólogo ou traficante. Melhor aceitar o enredo, saber que o fim fará parte e preparar-se para todas as fases, inclusive o epílogo. Em vez de enxergar Deus como um cara sacana que fez conosco uma pegadinha (e não é preciso blasfemar para isso, muitos crentes no fundo pensam assim) é mais inteligente encarar essa brincadeira de prazo indefinido como algo instigante e até mesmo interessante.

Com o espírito desarmado e leve, vamos aproveitar nosso tempo no carrossel. Porque uma hora ele vai parar e vamos ter que descer.

11 comentários:

  1. Mauro Pires de Amorim.
    Concordo contigo e penso que se Deus realmente exista, não tenha plantado a consciência da vida e da morte somente nos seres humanos, uma vez que tanto a vida como a morte estão intrinsecamente relacionadas, por fazerem parte da consciência da existência.
    Com isso, não nos esqueçamos que os animais também se recolhem ou se retiram quando pressentem que o fim está próximo, como é o caso dos elefantes, que escolhem locais específicos para serem seu cemitério.
    Outro dia, estava assistindo um programa televisivo sobre os animais e uma câmera instalada numa rodovia com o intúito de monitorar o tráfego na mesma, captou a imagem de dois cães que tentavam atravessa-la. Um dos cães, o mais velho e líder da dupla, aventurou-se primeiro e acabou atropelado. O outro cão, ao presenciar a agonia do parceiro, foi até ele e arrastou-o de volta ao acostamento, permanecendo junto do parceiro e confortando-o com lambidas e afagos. Nenhum dos humanos que transitava em seus carros na rodovia parou para socorrer o cão atropelado. A equipe de resgate e controle da rodovia quando chegou ao local, o cão atropelado estava nas últimas, vindo à falecer logo em seguida. No entanto, seu parceiro com ele permaneceu até o fim, acabando sendo recolhido pela equipe de resgate e monitoramento da rodovia, sendo encaminhado para um abrigo, onde recebeu cuidados e alimentação e posteriormente disponibilizado para a adoção por ser um animal dócil, embora estivesse um tanto mal tratado pelas agruras da vida.
    Outro caso que assistí há anos passados, também pela televisão, ocorreu na China, sendo o caso de um Urso Panda idoso, que tendo seu habitat depredado em função da devastação humana e devido sua idade, já não tinha mais as mesmas forças de antes para percorrer grandes distâncias e tentar migrar para outras florestas mais ricas em alimentos. Assim, o animal famélico e idoso acabou na varanda de um agricultor chinês numa cidadezinha rural. O agricultor e sua família foram acordados no meio da madrugada com um som emitido pelo animal, que se assemelhava à um choro, uma lamúria. O agricultor e sua família se assombraram ao se depararem com o Urso Panda, mas diante do choro do animal se aproximaram e serviram-lhe água, alimento e providenciaram cobertas contra o frio. O animal fartou-se e em momento algum mostrou-se agressivo, muito pelo contrário, aceitando a acolhida e os afagos da comunidade agícola. As autoridades chinêsas foram comunicadas do aparecimento do animal na comunidade agrícola e após poucos dias vieram recolhe-lo para um santuário de Ursos Panda, mas ficaram estufedas com o fato do animal ter pedido ajuda aos humanos ou ao menos morrer tentando.
    A raça humana é arrogante e egocêntrica, se acha o único biscoitinho do pacotinho. Deveria aprender a ter harmonia, paciência e humildade com os animais, que em sua maioria, mostram-se muito mais sensatos do que nós humanos. Os animais não sentem atração pela cultura e sociedade dos humanos, a não ser em caso de extrema necessidade, quando seu habitat é depredado pelos humanos, pois seus valores são outros. Por isso, acredito que éticamente os animais são mais evoluídos do que nós humanos, afinal, é melhor ter um animal amigo, do que um amigo animal.
    Felicidades e boas energias.

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  2. Marcelo,
    Parabéns pelo post. Extremamente lúcido e inteligente.
    Um abraço,

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  3. Este é um dos grandes mistérios da existência, Marcelo. E como não sabemos quando a vida acaba, temos que dar o nosso melhor para viver feliz e fazer feliz quem estiver ao nosso alcance. A busca pela superação de nós mesmos é a nossa grande busca.

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  4. Marcelo,se vc conhece algo mais perfeito que a natureza,conta pra mim,a começar pelo mundo dos animais.E quanto a passarmos dessa para a melhor... Não quero falar disso. Abs.

    Monica.

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  5. Gostei do texto, apesar de ser um pouco longo.

    Paulinho Cury

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  6. Também gostei do texto, bom para refletir.
    Estou voltando à gostar da vida, e o sorriso sincero aos poucos vou treinando com minha filha de seis anos, a melhor professora que já tive.
    Sergio.

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  7. Você disse tudo, Sergio, as crianças são nossos melhores professores

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  8. Só um toque: houve erro de digitação em "quando veicularam a fé à propsperidade". Além da palavra "prosperidade", também seria "vincularam", e não "veicularam". E sobre o tema do post, é por aí mesmo... diante do enigma da existência, cada um busca suas próprias respostas, sejam espirituais ou materiais... (minha opção é a primeira). Abraços.

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  9. Prezado MM...até hoje não se conhece outro vivente tão tolo quanto o ser humano, cujo conhecimento deveria servir, ao menos, para podar o excesso de orgulho e/ou prepotência. Nem com a morte que nos dá a lição definitiva da nossa fragilíssima provisoriedade ( e o que amtes não fenece, rápido demais envelhece), esta assustadora ou maravilhosa espécie aprende a abraçar a incerteza (o que nos espera é exatamente o inesperado, da sábia C.Lispector) e a aceitar plenamente o drama ou a comédia de estarmos vivos somente por enquanto, no instante que passa inexoravelmente... Como somos, antes de tudo, seres desejantes e a natureza do desejo é, intrinsecamente insatisfeita, inquieta e indomável, pois condenados estamos à procura de algo profundamente "perdido" e à angústia do buscar, buscar, buscar, num vir-a-ser constante.Jamais estaremos completos e perfeitos neste cenário de impermanência , sombras e luzes, chamado vida. Porém não podemos admitir que os fatos e as coisas da vida sejam maiores do que nós, como se fôramos um rio que não se deixasse escrazivar ou se aprisionar pelas margens limitadoras (aqui comprendidas como os desejos dos outros, alheios à nossa natureza). Alguns de nós, os mais ribeirinhos digamos assim, quando necessário, temos as nossas cheias, transbordamentos, secas e vazantes, inclusive podendo receber outras águas e não apenas os velhos e recorrentes seixos "paradigmáticos" ou, pior, preconceituosos rolando no seu fundo lodoso.Ainda fico com a sacada da Cecília Meireles: a vida só é possível, reinventada, que , nas palavras do incomparável Fernando Pessoas, esta possiblidade existe:"a arte é uma confissão de que a vida não basta". Se exite(m) outro(s) caminho*s) para a felicidade, desconheço, além dos óbvios: saúde, auto-conhecimento inclusive das reais potencialidades e defeitos, o altruísmo, as amizades, a generosidade, o belo, o bom, e o bem. Ato contínuo, CARPE DIEM porque TEMPUS FUGIT.
    Abraço e parabéns pelo excelente post.
    Marcos Lúcio

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  10. Desculpe a digitação sem correção, agora feita:nunca; escravizar; compreender; F.Pessoa.Obrigado e abraço do M.L.

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