Translate

sábado, 27 de agosto de 2011

A pizza

Os dois estavam esfomeados. Larica da braba, se é que você me entende. Mas o Pequeno e o Dorgô não tinham um puto pra matar a danada.

Pausa.

Primeiro, é preciso explicar, por que "Pequeno" e por que "Dorgô". Eram apelidos colocados pela turma da rua, claro. Mas o Pequeno era alto pacas, um tremendo vara pau. Bom, ele não nasceu daquele tamanho, então passemos ao seu inseparável companheiro de ócio noturno. Dorgô é Gordo ao contrário, uma mania que os adolescentes não aposentam de jeito nenhum: inverter as sílabas para criar seus próprios códigos e dialetos.


Voltando aos dois panacas. A fome apertava, parecia que cada um deles tinha um buraco no lugar do estômago. E, como a necessidade é a mãe da invenção, logo surgiu uma ideia de jerico. Estava demorando.

_ Vamos ligar e pedir uma pizza! _ disse Pequeno após um longo e surumbático silêncio.

_ Tá viajando, cara! _ espanou Dorgô.

_ A gente entra naquela casa de esquina, que é uma clínica e hoje tá vazia. Aí, quando o entregador chegar, eu recebo a pizza por cima do portão, digo que vou pegar o dinheiro e a gente dá a volta na casa, pula o muro e sai fora pela outra rua.

Dorgô ficou pensativo com o plano mirabolante. Porém, mais mirabolante ainda era a fome que sentia e ele acabou topando a maluquice. Com uma ficha (naquele tempo ainda se usavam fichas para ligar do orelhão), telefonaram para a pizzaria.

_ Calabreza caprichada na cebola _ disse o Pequeno, salivando e fazendo voz de gente que tem dinheiro.

Apesar das dificuldades para alçar o Dorgô por cima do muro, ambos conseguiram entrar na casa. Aí foi só esperar o barulho da moto do entregador, que não tardou já que o rapaz avançou todos os sinais que pôde.

Tudo ia bem. Pequeno recebeu a pizza como um lorde inglês e gentilmente pediu ao motoboy que aguardasse alguns instantes enquanto fazia o cheque (naquela época ainda aceitavam cheques).

O rapaz ficou esperando, esperando, esperando... enquanto do outro lado da casa, Pequeno pulava o muro com a pizza na mão. O problema foi que o gordo empacou. Não saía nem voltava para dentro da casa.

Intrigado, o motoboy fez o que qualquer um faria, caminhou até a esquina e viu a cena dantesca. Pequeno puxando o Dorgô com uma mão e segurando a pizza na outra.

_ Pô, tá vendo, isso é que não pode! _ gritou o entregador, já chegando perto da dupla de pilantras atabalhoados.

_ Foi mal, cara, a gente tá duro, tá morrendo de fome _ argumentou Pequeno em tom de súplica.

_ Eu vou ficar no prejuízo?

_ Vai não, vem cá, senta aí _ convidou Pequeno, já agachando-se para sentar no meio-fio, enquanto Dorgô finalmente desabava na calçada. _ Come com a gente, na boa, pega aí.

_ Pior é que eu tô com fome mesmo _ admitiu o motoboy.

E assim, os três acabaram dividindo a pizza na madrugada.

Tem coisas que só acontecem no Rio de Janeiro...

Um comentário:

  1. Marcelo,sabe aquele dito popular,"vivendo e aprendendo"? pois é,eu já aprendí muita coisa nesse mundo,só não sabia que gente que tem dinheiro,tem a voz diferente. rs Boa noite.

    Monica.

    ResponderExcluir