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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A história de Jorge

Hoje, o Jorge faz 40 anos.

O conheci ainda adolescente, nas esquinas da vida. De família numerosa e pobre, Jorge saiu de casa cedo, fugindo da violência do padrasto e da condescendência absurda da mãe, alcoólatra.

Começou a beber cedo, antes que isso se tornasse comum também na classe média. Viciou-se em cachaça, que era a droga dos jovens das favelas antes que o crack os tomasse de assalto. Sem rumo aos 20 e poucos anos, Jorge perdeu o abrigo na casa de uma tia e passou a viver nas ruas.

Cansou de acordar machucado sem lembrar o que havia feito para que lhe batessem e experimentou várias vezes aquela que, segundo ele, é a pior coisa que o vício em álcool pode provocar: a depressão de acordar de um porre no meio da calçada, ante os olhares reprovadores dos passantes. Sensação pior não há, me disse ele uma vez.


Um de seus irmãos foi preso. Foi ele quem contou a Jorge que, antes de partir para um assalto, a quadrilha se dava as mãos e rezava para que Deus protegesse a todos. Como jogadores de futebol na hora de entrar em campo.


Mas o crime não seduziu Jorge, que sempre foi honesto. Sua revolta, ele afogava no álcool e nas drogas. Viu muitas das prostitutas com quem conviveu morrerem de aids e acha que foi um milagre não ter ido também.

Num certo dia, depois de dormir na chuva no canteiro de uma praça e acordar ensopado, Jorge decidiu mudar de vida. Entrou numa igreja evangélica e sentiu o arrepio da própria fé. Dela tirou forças. Na primeira vez em que conseguiu resistir a um copo de cachaça, chorou de emoção. Conta que sua mão queria ir em direção ao copo, mas alguma coisa a impedia. Ele mesmo, talvez...

Na igreja, conheceu uma jovem, que o tirou das ruas e com ele se casou. Lá se vão uns dez anos. Jorge é pai de Mateus, um garoto alegre a quem ele dedica todo o amor paterno que nunca teve.

Se antes sobrevivia como flanelinha, Jorge agora trabalha de carteira assinada. Começou como faxineiro e já é chefe do setor. Estuda à noite, vive me pedindo livros, qualquer assunto serve. O que lhe importa é ter o que ler.

Nos fins de semana, Jorge continua lavando carros e fazendo faxina em casas e prédios. Primo de um jogador de futebol que ficou milionário jogando no exterior, Jorge acabou se conformando com a indiferença do craque. Convenceu-se de que nada cai do céu, aliás, aprendeu isso a duras penas.

Vendo-o dar duro de sol a sol, digo a ele que todo mundo precisa de folgas, de momentos de lazer, mas ele responde, determinado:

_ Quero sair daquela favela, não quero que meu filho cresça naquele ambiente.

Jorge sabe o que faz. E aonde vai.

Parabéns.

Jorge com seu filho Mateus

6 comentários:

  1. parabéns jorge,o Brasil se faz com gente que faz. Lindo texto flávio. quanto mais a gente lê e se torna culto mais agente se afasta de deus e um dia agente se olha no espelho e descobre que era mais feliz quando acreditada nele.

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  2. Marcelo,eu queria saber quem é esse jogador.Mas deixa pra lá,o importante é que o Jorge deu a volta por cima com muita coragem,(coisa difícil entre moradores de rua) que Deus o proteja por toda vida! Abs.

    Monica.

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  3. Essa é a diferença. Ensinar a ler. Dar o ponto de partida, quanto ao de chegada, dependerá de cada um. Existe bênção, que deveria ser chamada de oportunidade, mas também existe a escolha, que é muito mais importante.
    Entreter, qualquer um entretém, ensinar, apenas bons professores.
    Parabéns ao Jorge, guerreiro, lutando contra a adversidade, parabéns ao jornalista, independente, com as mãos limpas.

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  4. Só mesmo as Igrejas Pentecostais (tá certo?) para receber essas pobres pessoas esquecidas da sorte. Precisam de uma palavra amiga e de esperança. É claro que cada vez mais aumenta a quantidade de adptos. Lá são recebidos como seres humanos carentes de tudo que precisam de "colo". Nas concentrações destas seitas nota-se a multidão de adptos. Seus pastores ficam milionários. Mas ai já é outro departamento. Todas as religiões cobram por seus "serviços espirituais", mas nem todas dão aquilo que uma alma perdida procura. Yvonne Brandão.

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  5. Exemplo que se segue na vida! muita fé e luta -

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  6. exemplo de superação! nome de guerreiro - luz sempre Jorge-abração do coyote e Gilmar

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