Translate

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A indústria do medo

Nestas minhas férias, que infelizmente (ou felizmente) estão perto do fim, pude constatar como anda a todo vapor a nossa indústria do medo. Basta ligar a TV já às sete da manhã para que o desfile de crimes e doenças comece a semear em você o pavor de viver.

Estupro, sequestro, crime passional, latrocínio, tráfico de drogas, epidemia de crack, roubo, furto, atentado, bala perdida, explosão de bueiro, arrastão, homofobia, encontro de cadáver, atropelamento, desastre de carro, batida de trem, queda de avião, estelionato, pedofilia, violência contra menores, mulheres, idosos...

A lista é extensa, e os programas jornalísticos seguem pela manhã inteira, alternando-se com desenhos animados violentos, muitos anúncios para tornar as crianças consumistas e programas de fofoca, maledicência e invasão da vida privada. Na hora do almoço, o cardápio continua indigesto, com os RJs temperando seus crimes com alarmes sobre doenças que podem estar germinando, claro, dentro de você, telespectador.

A tarde começa com mais fofoca, muita fofoca. O galã está com câncer, é fantástico! E reprise de novelas inadequadas para o público infantil, mas quem se importa? Os filmes da sessão vadiagem também, quase sempre, têm temáticas violentas ou são aulas de sexismo.

E aí começam os programas policiais do início da noite. A cidade alerta, o Brasil urgente e você já apavorado, com medo de ir até a esquina comprar um pãozinho francês para comer com manteiga, aquela mesmo que um médico mauricinho acabou de dizer que vai entupir suas artérias e te levar pro buraco mais cedo. Obrigado, doutor!

Sim, a mídia vive de nos assustar. Seja com seu show policial ininterrupto ou com seus programas que explicam didaticamente quantas doenças você pode ter se não se cuidar (e até mesmo sendo um hipocondríaco de carteirinha, assíduo frequentador de consulórios médicos e laboratórios de exames).

Claro que há crimes demais, tanto nas metrópoles quanto no interior. É muita gente, educação caótica, famílias desestruturadas, falta de oportunidades de estudo e trabalho, miséria, incentivo ao consumo, ausência de espiritualidade, culto à violência etc. E, como se não bastasse tudo isso, ainda tem um monte de gente que rouba e mata porque é espírito de porco mesmo. Só de sacanagem.

Mas isso não justifica que nos deixemos contagiar pelo medo. Um estupro em São Paulo é um estupro num estado de 20 milhões de habitantes. Ok, vamos supor que tenham sido 10 estupros ontem, mas que as TVs só noticiaram um. Mesmo que fossem 10, é muito pouco diante de tanta gente para que você se sinta a próxima vítima.

E tem crime na Suécia, na Dinamarca, na Noruega, no Sudão, em todo lugar.

Um dos primeiros conselhos que os médicos dão a quem tem síndrome do pânico é parar de assistir a esses telejornais alarmistas.

Não, isso não vai acontecer com você. Se acontecer, é porque você ganhou na Mega Sena ao contrário.

E, como você não vai ganhar na loteria, fique tranquilo e viva a vida.

Mulher corre em Copacabana/Foto: Marcelo Migliaccio
Quem tem medo do escuro nunca vê o sol nascer



14 comentários:

  1. Interessante eh que a Inglaterra esta em chamas pelo mesmo motivo que Paris foi incendiada recentemente e ja ha uma previsao de que 40 mil brasileiros viajem para assistir a olimpiada de Londres. O motivo: Xenofobia. Quando o Pais vai bem os imigrantes sao bem vindos para fazer o trabalho que ninguem quer, quando vai mal a culpa eh deles. Imagine se a revolta popular fosse aqui?

    ResponderExcluir
  2. Eu no momento tô vivendo um dia de cada vez. sem criar muitas expectativas pro futuro.quase não vejo televisão,pois esse tipo de midia visa muito o lucro. E a programação é péssima de baixo nível.

    ResponderExcluir
  3. Pôxa Marcelo,eu queria ter esse raciocínio otimista que vc tem,mas não consigo.A medida que o tempo vai passando,e a violencia aumentando,cada vêz mais eu vou ficando literalmente presa dentro de casa. Boa noite.

    Monica.

    ResponderExcluir
  4. Numa coisa eu concordo contigo, dormir bem e acordar cedo, sem ser para sair pra ganhar dinheiro, é previlégio de poucos. respirar o ar fresco da manhã e sem aquela multidão de pessoas correndo atras de dinheiro e fingindo ser feliz.

    Sergio

    ResponderExcluir
  5. Mauro Pires de Amorim.
    Por um lado você tem razão e certos veículos de comunicação, como as tvs Record e Bandeirantes, passam em boa parte de sua programação jornalística notícias e reportagens sobre crimes, que como você mesmo disse, de fato ocorrem, passando a sensação de que o Brasil é uma bandidolândia.
    Por outro lado, pior seria se houvesse censura ou até uma auto-censura nos meios de comunicação, tal qual em tempos recentes de ditadura, em que o "coro comia" igualzinho nos tempos atuais e o regime vigente impunha aos meios de comunicação que mostrassem o país de forma lúdica, pueril, parasidíaca, com seu povo desassistido, com cidadania incipiente, mas sempre feliz.
    Sou advogado, tenho algum conhecimento na área penal, embora atue muito mais na área cível, mas aprendí que os crimes são reflexos de uma sociopatia e a mais pura demonstração de como uma sociedade está ou é doente, de como o sistema é doente, inclusive na formação dos agentes, seus métodos e técnicas para combaterem a questão, incluindo-se aí as acomodações, oportunidades e metodologia carcerária, uma vez que esta possuí o papel recuperador e regenerador do indivíduo delinquente ou sociopata. Temos também que levar em conta o fator de preconceito e corporativismo social, uma vez que os presídios e cadeias estão cheios de pessoas oriundas das classes sociais menos favorecidas, passando a falsa impressão de que as classes sociais mais abastadas não são delinquentes, fator que é muito bem apresentado no livro, "Crimes Corporativos: O poder das grandes empresas e o abuso da confiança pública", do advogado norte-americano, Russel Mokhiber, demonstrando que quando pensamos em crime, nos referirmos aos crimes mais banais e que são noticiados diariamente nos meios de comunicação, mas que os crimes do colarinho branco e de corrupção causam mais danos em termos de prejuízos em todos os sentidos à sociedade, do que o poder de fogo de todas as gangues armadas do país juntas e que a grande maioria desses criminosos do colarinho branco e corruptos acabam não sendo punidos por conivência social e até mesmo por falta de consciência e despreparo do sistema estatal em dimencionar seu grau de periculosidade e dano à sociedade.
    Felicidades e boas energias.

    ResponderExcluir
  6. Caro Marcelo,
    Não consigo entender por que muitos comentários neste blog são feitos por anônimos. Será que estão com tanto medo da violência que têm receio de se identificar? A verdade é que eu não consigo dar importância a alguma coisa dita ou escrita por alguém que se esconde no anonimato da internet. Por isso acredito que você deveria impedir comentários anônimos em seu Blog.

    ResponderExcluir
  7. Marcelo,há alguns anos passei a perceber o que você descreve no texto,mas não foi sempre assim.Acreditava que a TV, e afins,estavam aí pra nos informar,alertar,educar,e não agiam segundo seus próprios interesses.Jogam em cima de nós suas opiniões pré fabricadas,como uma lavagem cerebral.
    Infelizmente há muitas pessoas refens do medo deflagrado pelos meios de comunicação,permanecendo dentro de casa como assíduos e fiéis telespectadores.
    Espero que seu texto esclarecedor ,possa alcançar muitas delas.

    Beijo grande e feliz dia dos pais !

    ResponderExcluir
  8. Fernando Couto Freire14 de agosto de 2011 11:32

    Marcelo,
    Parabéns pelos seus comentários. Concordo integralmente com eles. Claro que estamos vivendo numa sociedade carente de recursos, políticas sociais, educação e uma série de outras necessidades que se fossem tratadas certamente teríamos um Brasil bem melhor, mas também entendo que a mídia covardemente enaltece a violência dando manchete aos bandidos e corruptos.
    Tristemente a desgraça alheia sempre foi um produto fácil de ser vendido, desde os tempos em que se enforcavam as pessoas em praça pública, contudo o que temos aqui não é apenas o que nos aflige.
    Amemo-nos uns aos outros e respeitemos os nossos semelhantes como pretendemos ser respeitados, tenho certeza de que o caminho inexoravelmente passa por aí, e como você muito bem escreveu na bela foto que ilustrou a tua postagem, quem tem medo do escuro não vê o dia nascer!
    Fernando Couto Freire

    ResponderExcluir
  9. Estou deixando de ver televisão, só me pauto pelos blogs e principalmente pelos blogs "sujos" segundo o candidato derrotado "bolinha de papel" dou um doce pra quem acertar o nome da criatura...

    ResponderExcluir
  10. Prezado...a recusa injustificável, ou adiada, ou mal resolvida de encarar suas desigualdades sociais (não basta tratar das consequências, ficar enxugando... é fundamental sanar as causas, enfim, fechar a torneira), faz o Patropi pagar caro , com a "segurança" e com a violência, principlamente criminal. Para "fechar a torneira", primeiro o controle de natalidade (sim, a reprodução irresponsável é o problema número um), depois educação de qualidade para todos . Neste pormenor da maior importância, o resultado de excelência, a curto prazo, seria a obrigatoriedade para os políticos de matricularem seus filhos em escolas públicas_a única solução confiável e eficiente_pois não acredito em nenhuma outra possibilidade de melhoria educacional, sem contar o absurdo, desrespeitoso e aviltante salário praticamente mínimo dos professores ,que considero-os o máximo, posto que formadores das demais profissões.Depois emprego, inclusive para os desempregados, e uma rede ou proteção social para os mais pobres (já estão fazendo...em parte). Como não vejo televisão, graças a Deus (não tenho pequenos vícios rsrs... e, menos ainda, tempo para desperdiçar; na verdade faltam-me horas em todos os meus dias), nem por isto me privo de imaginar que, tanta notícia de violência, tragédia, doenças e outros horrores...se não tiver, subliminarmente a "boa" intenção de manter o povo em casa, refém do medo de tudo e todos...aprisionado, como um videota, diante da rainha do lar (sim , é a tv, já foi o tempo que era a mãe e seu avental todo sujo de ovo rsrs), aumentando o ibope ou índice de bossalidade obtido pelo (tele)espectador e esquentando as vendas do shopping TV (se a tv tem outra intenção além de venda e lucro...não me contaram). Desnecessário comentar que a pessoa tem todo o direito de ver tv_ de preferência com critério, ressaolvas ou criticidade_e gastar seu tempo como merece ou lhe apetece, até mesmo catando coquinho, penteando macaco ou capando abelha rsrs...
    Boa sorte e abraço.

    ResponderExcluir
  11. Marcelo, meu prezado!

    Antes de qualquer coisa, o blog é viciante tanto quanto a coluna do JBONLINE. Deliciosamente viciante, vício do Bem.
    Quanto ao texto acima sei exatamente como funciona esta , assim chamada, indústria do medo que, quando não aprisiona o indivíduo em seus pensamentos mórbidos dentro de suas casas, faz com que tenhamos que conviver com pessoas que adoram falar de tragédias, doenças e mazelas alheias o tempo todo, o dia todo. É duro você cheggar ao local de trabalho e, como resposta ao seu bom dia já recebe um "viu o caso está com câncer?"
    Este tipo de coisa já bate na minha cabeça como uma bigorna. Até porque não é só o ator que está com câncer, até porque câncer não é uma sentença de morte então... por que insistir no assunto?
    Mas as pessoas não se dão dão conta, as imagens da tv, os telejornais e tudo mais estão impregnados de tal forma que ninguém se dá conta de que existe um lado bom da vida, que existem coisas boas acontecendo, que não é preciso focar só mal, falar só do mal, ter orgasmo contando tragédias. Ninguém chega perto de você para comentar um bom livro que leu, mostrar uma fotos bonitas ou qualquer coisas alto astral.
    Disso tudo, só posso presumir que a resposta está dentro do seu próprio texto: "Sim, a mídia vive de nos assustar". A nós cabe não permitir que aconteça. A programação está ruim? leia um bom livro, ligue para um amigo para saber das novidades, faça um quebra cabeças, sei lá.
    Ou a única opção de lazer que temos é a tv? Sei, vão gritar que é o lazer do pobre, que tudo o mais é muito caro. Sei... é por conta deste tipo de desculpa que a industria cresceu e as coisas estão como estão.
    Abraços fraternos,
    Virginia Meirim

    nota de rodapé: já me basta o sofrimento de ser uma FLAMENGUISTA desvairada.

    ResponderExcluir
  12. E a despeito de tudo estamos vivos. vem aí, mais uma novela da indústria do medo: o Belo Monte. - no rights reserved, William Blak.

    ResponderExcluir