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quinta-feira, 21 de julho de 2011

A tampa de bueiro perdida

Esse negócio de os bueiros irem pelos ares aqui no Rio tem uma simbologia danada Todo mundo sempre diz "...uma hora essa merda vai acabar estourando". Pois chegou o momento. É fumaça saindo em Copacabana, tampa de ferro voando no Centro da cidade, e o carioca vivendo em um campo minado, com medo de ir comprar um leite na padaria e acabar entrando em órbita.

Parece que estou brincando e, afinal, estou mesmo, porque o cidadão do Rio tem o salutar poder de brincar com a própria desgraça. E a Francisca. uma professora de literatura que tive na sétima série, me ensinou que um homem que consegue rir dos seus problemas está bem próximo do amadurecimento.

As piadas com a paranóia que vem do subsolo já tomaram conta do Rio.

_ Tem gente marcando encontro com desafeto em cima de bueiro da Light e se atrasando de propósito _ troça um.

_ Agora, além de bala perdida, temos que fugir de tampa de bueiro perdida _ goza outro.

Há uns três anos, fiz uma reportagem no <b>Jornal do Brasil</b> que mostrava a confusão de fios, tubulações de água e canos de gás no subsolo do Rio. Até então, nenhum bueiro tinha ido pelos ares, mas os engenheiros que entrevistei me disseram que estavamos em cima de um paiol de pólvora.

Achei que era exagero...

Na mesma reportagem, um ex-diretor do metrô, responsável pela construção das galerias que cruzam o Centro, me falou que eles tiveram até que desviar o trajeto inicialemente previsto tal era a balbúrdia que encontraram embaixo da terra. Uma coisa tão caótica que preferiram nem mexer. E o projeto, claro, ficou mais caro, mas não tão caro quanto seria ordenar o subsolo.

O trabalho das concessionárias de serviços públicos no Rio é sofrível. Trens, barcas e metrô irritam os usuários com seus atrasos e defeitos, fora a truculência dos agentes de segurança.

Agora, as permissionárias de exploração do gás encanado e da energia elétrica mostram que não querem ficar para trás nesse campeonato de ineficiência.

Tudo privatizado, e diziam que o estado não tinha competência para gerir.
A multa de R$ 100 mil para Light e CEG por cada acidente com vítima ou danos ao patrimônio é ridícula. Um desrespeito com as pessoas que se feriram e com as famílias dos que morrerem. Cadeia que é bom, nada. Ano passado, uma turista americana teve quase todo o corpo queimado quando passou com um marido sobre um bueiro explosivo em Copacabana.

Foi uma excelente propaganda para a Copa do Mundo no Brasil e a Olimpíada no Rio...

O mais incrível é que os acidentes já começaram com uma frequência absurda. São praticamente diários. Se fosse num país com histórico de terrorismo, poderíamos pensar em atentados.

Mas o brasileiro é um povo pacífico, dizem. Para mim, pacífico nem é o termo, pois a violência urbana mostra que somos uns raivosos.

Eu diria que o brasileiro é um povo embotado.

Um comentário:

  1. http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110722/not_imp748322,0.php

    Marcelo, a indignação, basta? Ou o importante é a mobilização, organização, de pessoas dispostas a mudar o que deve ser mudado?

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