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sexta-feira, 24 de junho de 2011

O velhinho do banheiro

Um dos meus passatempos preferidos é passear pelo Centro de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão (Zona Norte do Rio). Gosto muito do Nordeste, da gente e das coisas de lá. Frequento aquele lugar desde que ainda era uma grande feira em volta do pavilhão, na rua mesmo. Tempos depois, a prefeitura percebeu a força cultural daquela concentração, reformou a velha estrutura e criou um espaço à altura.

Como geralmente vou lá nos fins de semana, vejo que há muita gente que vira noites ali, naqueles forrós arretados, bebendo, dançando e namorando. Os banheiros, claro, ficam em petição de miséria, com muito xixi pelo chão, embora a turma da limpeza esteja sempre por ali, numa luta inglória contra o mais conhecido efeito colateral da cerveja: a vontade de urinar.

E foi num dos banheiros que vi um senhor idoso, encarregado de deixar aquilo em condições minimamente aceitáveis. Pois aquele homem entrega-se com tanto esmero à tarefa que me sensibilizou. Sempre que alguém usa um dos reservados e não dá descarga, o velhinho chama a atenção da pessoa.

Não preciso dizer que ele passa o dia chamando a atenção das pessoas.

Mas ele nunca desiste, e é isso que eu acho incrível. Sabe que é uma batalha perdida, mas nunca para de tentar educar os frequentadores. Alguém pode pensar que ele faz isso porque estãolhe dando trabalho extra, mas eu prefiro acreditar que ele acredita que as pessoas podem ser melhores do que são, que o mundo pode ser melhor.

Foi aquele velhinho que me mostrou que toda a tarefa, todo ofício, não importa o quanto degradante e humilhante pareça, quando executado com dignidade e dedicação,torna-se enobrecedor. Ele cuida daquele ambiente, que várias vezes por dia fica imundo, como quem cuida da sua própria casa


Num país de verdade (se é que existe algum), esse homem mereceria uma medalha. No entanto, para a maioria dos que passam por aquele banheiro, ele é invisível.

Banheiro do Centro de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão, Rio. Foto de Marcelo Migliaccio

Um comentário:

  1. Eu também já me espremi bastante pela feira de São Cristóvão e era uma delícia. Hoje não moro mais no Rio e a revoada foi de um saudosismo, um instantâneo! Sabe Marcelo; Quando conheci minha atual companheira, que de leite Ninho só ouvia falar, comecei a aprender outras coisas e uma delas, é que o emprego, trabalho, dedicação está na consolidação de uma necessidade. Para ela não existe presidente, fulano de tal, saco roxo, nada. Ninguém a faz baixar cabeça e isto, me ensinou uma coisa: "Ensina-me a Viver" Filme " Harold & Maude"; entra na composição da minha vida atual com ela, onde sou obrigado a sorrir muito, quando o avesso do que penso, simplesmente é muito mais razoável do que a pompa com que vejo coisas - pela ótica do leite Ninho. Parabéns por notar e tanto respeitar o homem que limpava o banheiro.

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